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quarta-feira, 22 de agosto de 2012


 Foto: Silêncio de Pernes

Não falei e não quero falar com ninguém sobre o que se passou... Mas, isso significa que tenho uma pergunta e que só a posso fazer a ti... Sou só eu que desde 3ª feira ando desassossegada a pensar no que se passou? E a fantasiar com o que se passaria a seguir? Não consigo afastar a memória dos teus lábios a desafiarem o controlo que procurava aplicar nos meus, a tua respiração no meu pescoço a provocar-me arrepios, a minhas pernas entrelaçadas nas tuas e o corpo todo a condensar-se num jogo húmido que pedia para entrares em mim... Queria sorver-te os lábios num beijo denso e quente, queria tirar-te a roupa e sentir a tua pele na minha, roçar os meus seios na tua boca, sentir os meus mamilos a desfazerem-se no rodopio da tua língua e a prenderem-se no intervalo dos teus dentes, queria sentir-te a ficar duro na minha boca, queria vir-me de prazer nos teus dedos, queria sentir-te a penetrar-me, acolher-te em mim até estremecer de prazer... e começar outra vez e outra vez e outra vez até aplacar a cordilheira agreste do desejo que me consome...

10.11.2012

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Retornar

E a Vida brinca mais uma vez ao "1, 2, 3, diga coincidência mais uma vez..."


Os meros sinais da tua tua presença já me fizeram tremer o corpo, já me secaram a boca, já me plantaram uma pedreira no estômago... Fui percebendo que o epicentro do tsunami físico que semevas em mim, aos poucos, se deslocava, afrouxando a nefasta devastação que me provocavas... Meses passaram sem a intempérie de te vislumbrar, até que na quinta-feira lá estavam os teus indicíos, lá estavas tu... Mas, em mim, não houve uma nuvem que se formasse, não se discerniu uma brisa, não se apagou o sol que agora brilha e me aquece. Sorri, depois, quando percebi de que é que se tratava... a memória do corpo dissipara-se, finalmente.


Quase jurava que tinhas avistado o bom tempo que em mim fazia ou que engenhosamente terias encontrado este espaço de confissões e, por isso, após meses de hirto silêncio frio, decidiste assolar-me com um contacto (por sms, como tu e os adolescentes tanto apreciam...). Mas, não, nada disso. É só a culpa, que tarda, mas não falha, é só o retorno de uma lembrança torta que transportas, é só a porta entreaberta que, por teimosia, não fechaste. Faz frio, não é? Que pena não te poder ajudar, mas essa corrente de ar já não me incomoda, já não estou do outro lado à tua espera...

segunda-feira, 10 de março de 2008

Degraus na longa escada da compreensão

Neste espaço onde não me coíbo de mim e onde o encontro se combina nas esquinas das palavras, também me escondo, também me oculto, também me atraso e também falto ao compromisso. Nestes dias, e até hoje, eu teria sempre algo a acrescentar sobre ti… Mas eu não quero, porque não sou totalmente capaz de esmiuçar e desgastar os nexos explicativos para a dor e para a perplexidade que, também aqui, tenho tentado aplacar. Por pudor, por vergonha, mesmo para mim, é difícil apresentar, redigir e digerir completamente a didascália desta acção. Mas a verdade é que se me distanciar, se me vir como personagem desta história: faz algum sentido. Porque já vivi outros amores, já sofri noutros lugares, tive a pretensão de achar que aos 28 anos, já tinha percebido como é que isto funciona. Eu já tinha tirado de letra esta coisa das relações. A mim, já ninguém me apanhava em falso. Eu não dizia isto, mas acho que era o que pensava… E aqui, vejo a Vida com um ar matreiro e sabido, numa esplanada lânguida com sol e gins tónicos, a decretar preguiçosamente a reposição da ordem cósmica do reconhecimento e das ignorâncias: "ah, então tu pensavas que sabias tudo… espera lá…"

Às vezes, dizias-me, “gostava de te ter conhecido antes, gostava de te ter conhecido quando estava bom”. Essa frase… essa frase plantava em mim sensações tão díspares, sentia-a, ora como um elogio, ora como um insulto. Às vezes, dava-lhe algum seguimento, imaginando como é que seria? E a verdade, é que foi pela forma como agora caminhavas até mim que permiti que te aproximasses. Eu dizia-te, e dizia-me vezes sem conta, que essa condição nada influenciava… Mas mentia… Essa condição perturbava tudo, porque essa diferença me deslumbrava, turvando e ocultando tudo o resto e distraindo-me de ti. Porque era a prova visível da aprendizagem que tu inevitavelmente terias realizado, o catalizador irrefutável para a mudança que tu terias operado (transformação em que, na generalidade, eu nem sequer acredito ser possível, porque, no essencial, as pessoas não mudam). Tentava imaginar-te antes e (especulativamente, bem sei) não era capaz me ver a nutrir mais do que um leve desprezo pela tua bela aparência oca e desprendida. Ao antes-de-ti eu já tinha sido apresentada e do antes-de-ti eu também já tinha descoberto que nada haveria a esperar.

Aprendi por mote próprio que não se deixa para amanhã o que se pode gostar hoje, aprendi que não ocultamos quem amamos das pessoas que nos rodeiam, aprendi que todas as manhãs são poucas e todas as noites demasiadamente curtas para não as partilharmos com quem amamos, aprendi que não nos afastamos para nos resolvermos, apoiamo-nos nas pessoas que amamos para nos tornarmos mais claros, mais nítidos e melhores. Aprendi com o corpo, com as lágrimas, com a dádiva e com a dor. E achei que já sabia...
Mas, agora, tu deslizavas até mim, corporizando uma realidade que me era tão estranha e que eu não ousava questionar. Esse era o reduto justificativo onde te apoiavas agora para te afastares, como sempre o fizeras, embora invocando outros pretextos.
E eu, ainda com tanto para aprender, a achar que já tinha percebido tudo… E, eu tola, a achar que não me poderias magoar, não tinhas como… Tu não tinhas pernas, mas sim asas para me proteger como um anjo. Tu não tinhas maldade, apenas sofrimento e gratidão no olhar. Tu conduziste-me ao engodo primordial nas pesquisas que fiz, a fim de te perceber melhor… a tua deficiência é emocional e não tem rampas à vista.


Foto : Sem Título, Rosalina Afonso

quinta-feira, 6 de março de 2008

Perenidades temporárias

As marcas da tua cadeira ainda jazem na parede da minha sala. Estão lá. Fossilizadas. Testemunhas mudas de um amor estridente que outrora fizemos. Ainda não as consegui apagar. Ainda não me consigo ver munida de lixívia e pano em riste a esfregar esses sinais. A lutar com esses vestígios já tão distantes de ti. A branquear esses resíduos que provam que não enlouqueci, que não me limitei a sonhar a tua presença.
Não me desfiz do vestido que me ofereceste num aniversário que parece já tão longínquo. Depositei-o num saco, destinei-o à lixeira com os demais detritos que a vida de todos os dias produz. Mas, ainda não fui capaz, porque esse não foi um vestido de todos os dias. Foi o vestido do dia em que me presenteaste, provando saber o meu tamanho de cor. Provando saber que eu te queria, sabendo-me mulher, sabendo-me tua, sabendo-me o corpo medido nas unidades das tuas mãos. Foi o vestido de um jantar com velas que te preparei com o desvelo de uma dona-de-casa, que já não é dona de si. Foi o vestido que, com dúvida, afastavas metodicamente para confirmar o que sabias desde o princípio: o meu corpo sedento do teu.
Ainda não me imagino a aprender outro corpo. E para o fazer tenho de manter esse vestido. Aguardando o dia em que ele me permita eleger novas mãos. Aguardando o dia em que ele já não se sinta traído e desrespeitado porque uma outra dúvida o aparta. Aguardando o dia em que seja possível inscrever novas marcas, provas irrefutáveis do fim… de um capítulo, porque Fukuyama estava errado, a História não termina.

Foto: "Rugas" de Maria Isabel Baptista

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Enquanto me saio de ti

Ajudaste-me da pior maneira possível, sem o saberes. Afundava-me no poço ambíguo do teu silêncio, inesperado, violento e incógnito, sem lhe encontrar o fundo. Desvendar a tua dupla face (intuindo a existência de outras tantas), descobrir que o fio do teu desinteresse conduzia a um outro interesse, a uma outra presença (intuindo a existência de outras tantas) foi o que me amparou, foi o chão firme onde apoiei os meus pés. Foi a plataforma de onde me impulsionei para me ir saindo de ti. O poço era tão fundo, a queda foi tão feia e esse chão… esse chão era tão lodoso, por isso sei que ainda estou em movimento, nesse movimento de me ir saindo de ti. Por isso, eu sei que ainda custa cruzar-me contigo e fingir-te estranho, quando sinto o peito a querer fugir-me e tenho de o segurar com um passo firme que não te intercepte, que te seja tangencial…

Queria saber-te coxo do coração, como eu fiquei. Só queria ter percebido que te importei, só queria ter comprovado que não ficou tudo igual, depois de eu ter passado por aí.
Pareces-me triste… a barba tão comprida… o cabelo tão desleixado… e, no entanto, devias estar feliz, estás a amar novamente (ou lá o que é que tu fazes que pensas que se assemelha a amar…)

Tudo isto para dizer que ainda me dói. Tu não sabes, não tens como, porque quando decidi retomar a rotina que nos cruza, resgatei o rosto que queria que visses: sereno e imperturbável, sorridente e inacessível. E, às vezes, penso que encaras o meu comportamento como uma vingança, a pior, porque é uma das mais doces… e penso que te obstinas nesse silêncio fechado, vingando-te também...
If only you knew how little you had to revenge…
(Sarah, em The End of Affair)

Foto: Num sótão de memórias vãs, de Paulo César

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Irritações que ainda não passaram

Sabemos que o limiar da insanidade está próximo quando começamos a acreditar nas mentiras que deliberadamente construímos.
Não consegui vir trabalhar de manhã. Ontem, não te evitei. Cruzámo-nos nos tempos habituais, como se tudo estivesse normal. O dia estava lindo e, pensando que não me cruzaria contigo (ou se calhar, alimentando a secreta esperança de que tal acontecesse), ousei colocar um vestido e prender o cabelo (adoravas ver-me de vestido e com o pescoço desnudo...) E, não sei... Não sei se por estar sol, se por ter um vestido, se por não te ter evitado (tal como me acusaste de o fazer)... acho que pensei que tudo isso fizesse diferença... achei que ias ligar, que finalmente vinhas ter comigo... Eu sei que é tolo, mas era isso que secretamente esperava e foi isso que objectivamente não se passou. Foi tão difícil regressar a casa sem um sinal teu. Foi tão angustiante confrontar-me com as expectativas pueris que construí durante o dia. Adiei até ao limite a hora de me deitar e, consequentemente, fui transferindo de modo sucessivo a hora de me levantar. Hoje não te queria ver, sabia que hoje não te queria ver e queria que tu soubesses que hoje eu não te queria ver. Inventei um mal estar nocturno para justificar a minha ausência no emprego de manhã. E o que é estranho é que tenho passado o dia a chá, evitando café e comida com gordura, porque estive "mal" durante a noite. É a insanidade tornada facto...
Irrita-me o tempo que teima em não passar ao ritmo a que gostaria de te esquecer. Irrita-me o pouco empenho que as actividades diárias me exigem, não me permitindo tirar-te da minha cabeça. Irrita-me as centenas de conversas imaginadas que já tive contigo. Irrita-me sentir que os meus passos se encontram condicionados pela busca forçada do não te ver. E nesse esforço de não te encontrar, deparo-me constantemente contigo. Irrita-me sentir que não controlo e não influo em nada do que rodeia. Irrita-me não saber o que pensas, o que sentes. Irrita-me o medo que me assola antes de ir dormir, os momentos cheios de ti, quando me enrolo longamente nos lençóis na esperança vã de adormecer automaticamente, de não sonhar contigo e desejar acordar numa manhã mais limpa, em que tudo se repete, mas de uma forma cada vez mais desfocada e longínqua, menos dolorosa e sofrida. Para quando?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

SMS versão telefonema (a "chaga" continua)

Mas será que não percebeste nada?!

Desde o início, não falamos a mesma língua, não entendias o que eu dizia e, consequentemente, eu também não descodifiquei devidamente o que me transmitias.
Na situação em que nos encontrávamos, existiam dois caminhos possíveis:
1 - Tu não ligavas e, logo, eu também não (e vivíamos felizes para sempre!)
2 - Tu ligavas, eu atendia (contrariamente ao que tu disseste que esperavas, vê-se que não me conheces) e nascia o nosso solilóquio.
Aconteceu a segunda e, devo confessar que não me surpreende inteiramente. Tu és um gajo que gosta de dizer depois, quando conta as histórias, "ah, mas ficamos amigos. Aliás, ver se lhe ligo para tomarmos um cafezinho".
Mas, não entendeste, não vais entender e seguramente terás um choque, quando um Galileu qualquer irromper na tua vida e te demonstrar que o mundo não gira à tua volta!! Aliás, provavelmente já foste confrontado com essa revelação, mas certamente que a condenaste à fogueira. Não és capaz de, por instantes, sair da marcha autista da tua rotação e imaginares o que é estar na posição dos outros. Isso não é novo, foi sempre assim. Isso não aconteceu depois do acidente estruturalmente trágico que marcou a tua vida, simplesmente se agudizou depois disso. Isso não dá sinais de mudança e é aí que eu entro.
Reconstruíste os factos para encaixarem no teu narcísico paradigma, à luz dos quais, o que é realmente central é:
- eu não ter respondido à tua mensagem (como é que alguém tem o desplante de te ignorar?!);
- evitar cruzar-me contigo em contextos que nada mais permitem do que uma fortuita troca de olhares (como é que alguém pode conscientemente desperdiçar oportunidades raras de te contemplar?!).
Esta foi a informação que tu retiveste. Decidiste ignorar e não compreender (mesmo quando te explicava ao telefone) que:
- tu tinhas ficado de telefonar e não o tinhas feito;
- tinha de facto evitado situações de co-presença, que coincidem cronologicamente e derivam directamente de não teres cumprido com algo tão simples como telefonar, quando disseste que o farias;
- (nem sei se este merece ser tópico) não, não respondi à tua mensagem, porque não era uma mensagem que eu esperava, e querer falar contigo dependia directamente do empenho e da importância que demonstrasses que esse acto de comunicação teria para ti.
Resumindo: não percebeste nada do que se passou! Adepto fervoroso do negacionismo histórico, dediste escolher os factos que melhor te serviam, recusando, inclusivamente, discuti-los. Foi assim no telefonema, será assim na eventual conversa, negociada já em jeito de exasperada síntese, da seguinte forma:
C. - ah e tal eu não sei se queres conversar comigo. Eu quero falar contigo, mas tu é que sabes... (isto repetido de formas diferentes e intermitentes ao longo dos 15 minutos do telefonema)
Je - (já a espumar pela boca, mas fazendo jus aos ensinamentos das aulas de ioga...Ommmmm) Ok, então, deixa ver se eu percebi. Tu queres falar comigo e queres ouvir o que tenho para te dizer, certo?
C. - Sim.
Je - Eu também quero falar contigo, de outro modo, não te teria ligado há duas semanas a dizer 'preciso de falar contigo'.
C. - (que não aprende, mesmo, começa a rever mentalmente a sua agenda lotada) Ah, então amanhã, ehh, não amanhã, não, porque fiquei de ir com um amigo às compras. Mas, na sexta, ehh, na sexta tenho uma consulta e no fim de semana é compl...
Je - (nesta altura já não haveria Ghandi que aturasse isto, mas ainda assim, saquei de um lampejo de diplomacia). Olha, C., fazemos assim (acredite-se, ou não, eu ainda tenho dificuldades, consegui proferir esta frase com calma, de forma pausada e com uma dicção perfeita): Quando tu puderes, quando tu quiseres e te sentires com disponibilidade para conversarmos, telefonas-me e marcamos um dia, parece-te bem?
C. - Sim.
Je - Então fica, assim.
Sinceramente, não sei se vais ligar. Se ligares, é uma terra de ninguém que nos espera, um conjunto de ruínas ainda fumegantes que implodiram de desencanto, de desatenção e de desamor. Não será terreno habitável tão cedo...


segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Chorar e esquecer-te

É verdadeiramente inacreditável...
Ainda não consigo medir o tamanho da tua cobardia...
Estou a escrever a quente, bem sei, atónita, movida por uma raiva vazia e indignada.
Não foi neste domingo que eu te liguei, foi no anterior.

Não foi nesta segunda feira que tu te comprometeste a telefonar para combinarmos um encontro para EU falar. Foi na segunda feira passada, que o meu sofrimento e a minha espera se transformaram numa eternidade. Parecia que te esperava há um ano, e desejava-te regressado da guerra e igualmente sofrido.


O que é tu fazes? Recorres ao Short Message Service, esse instrumento esquizofrénico de camuflada comunicação contemporânea. Para me dizeres o quê?
Que sabes que estás em falta comigo (pois, muito bem que ainda não está tolinho nem falho de memória).
Que notaste que te ando a evitar (ora, brilhante, e o prémio nobel da inteligência emocional vai para...).
Questionas se ainda quero conversar contigo (é, de facto a única coisa que se aproveita, porque é mesmo uma pergunta e, sinceramente, não tenho resposta) .
Aproveitas para afirmar que gostavas de conversar comigo (olha que bem! Levamos cromos e figurinhas para trocar?).
E rematas de uma forma abrutalhadamente cobarde e cruel: "Mas tu é que sabes..."

O que eu sei, é que te quero esquecer, porque eu não conheço esta pessoa e não foi por ela que me apaixonei. Pensei que precisava de te comunicar o que sentia e o que pensava, para poder abandonar definivamente o local em que te amei. A tua silenciosa recusa, a tua ausência egoísta para com a necessidade que te havia verbalizado, faz-me repensar aquilo de que preciso. Não preciso de aplacar a tua culpa, não preciso de ouvir as tuas justifcações inúteis, não preciso de me arriscar a ficar novamente enlaçada no emaranhado da tua confusão mental e emocional.

Eu só preciso de abandonar definitivamente este espaço onde achei que encontraríamos o amor descompassado e sôfrego que nos permitiria ultrapassar interditos e partilhar momentos de corpórea felicidade na nossa imperfeição. E para isso, eu acho que já não preciso desta conversa. Só preciso de acreditar que o meu amor morreu e chorá-lo enlutadamente.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Fim interdito

Deixa ver se eu percebi...

Andas desde Dezembro neste chove não molha do "ai-hoje-não-posso-porque-deixei-a-avó-ao-lume" e do "ei-esta-rede-é-mesmo-uma-merda-não-é-que-a-tua-chamada-não-ficou-registada" até ao "não-respondi-à-sms-fofa-porque-o-reumático-me-impede-de-mexer-os-dedos".

E eu, que não sou parva (embora às vezes pareça) fui tomando nota das tuas atitudes em cima dos meus sentimentos. Ora, sucede que, tal como num bloco de notas finas, o que escrevemos numa folha acaba por passar para a seguinte. E o que tu fizeste ficou inscrito no que sentia.

A dada altura, entre uma fungadela e outra, fui pensando, "péra lá, isto não é a merda de um filme, que não vejo o realizador na sala a tentar apanhar o meu melhor ângulo de baba e ranho e nem é a porra dum livro para depois se arrumuar na prateleira. É a minha vidinha e, aqui, não curto por aí além o dramalhão!".

E num lento, mas progressivo, assomo de lucidez, fui percebendo que eu não quero estar com quem não deseja estar comigo. É tão simples quanto isso (eu disse simples, não disse indolor, hein!). É que não quero MESMO! Acho notáveis as histórias que contas sobre as mulheres que apenas te pediam para te deixares estar ali, ao lado delas, que apenas te pediam permissão para te contemplarem, para te tocarem.

Eu não sou assim, desinteressada, condescendente, boa pessoa. Sou mesmo egoísta no que respeita a sentimentos - quero-me muito, tal como tu deverias querer. Mas, não queres, certo? Ou melhor dizes que queres, mas não ages como quem quer, nunca agiste. A única diferença é que a minha fé desapareceu. Porque é de fé que se trata. Eu nunca tive a prova de que tu quisesses (nem poderia, nunca se pode ter esse comprovativo), mas acreditava militante e fervorosamente que querias. Até que essa crença, essa fé se esboroou.

Já não acredito. E isto não aconteceu por decreto. Ando há semanas a tentar perceber este processo e a descobrir o que é que quero. Até que decidi e uma vez decidido, optei por me comportar como gente crescida e comunicar-te que "não estou feliz, não estou feliz há muito tempo e não acredito que possa vir a sê-lo contigo, por isso, acabou". Telefonei-te e disse-te, "preciso de falar contigo" e tu já sabias, porque imediatamente, com voz grave e séria respondeste "sim, amanhã ligo-te e conversamos".

É curioso como constantamente se dilata a nossa perplexidade e capacidade de sermos surpreendidos. Achei que já te tinha percebido, que já me tinha desiludido, que já tinha dado por terminado o período de esperar por ti, achei que teria a última palavra, mas não... aguardo, ainda aguardo esse telefonema...

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Até quando te morder

Falámos. Finalmente falámos. Não sei se me consegui explicar devidamente. Não sei se compreendeste o que te quis dizer. Fico aturdida e muito pouco eloquente quando estou perto de ti. Procuro pesar cada palavra com rigor e construir um discurso filigranático para te transmitir o que quero e para ir ao encontro do que me parece que te é possível ouvir neste momento.
Tu falaste mais. Tu falas sempre mais. Já avançámos do ponto em que nos encontrávamos há 4 meses atrás. Mas é sempre com uma cautela cirúrgica que te pronuncias sobre o grau do nosso envolvimento. "Quero que me incluas mais" disse-te a dada altura. "O que é que isso significa?". Significa que não quero ficar à parte nos momentos em que te procuras resolver. Abraças-me. Digo-te que "Gosto muito de ti e quero estar mais vezes contigo". Dizes, "Eu sei" e novo abraço surge entre nós.
Separámo-nos e pedi-te "Confia em mim". Não sei o que é que isso significa, mas desenvolvi a infundada a teoria de que te é difícil acreditar na possibilidade de teres alguém ao teu lado que não se irá ausentar repentinamente e que não ousas ainda pensar na possibilidade de amar e de te deixares amar.
Espero ter a força de te acariciar, beijar, sondar e sentir até te deixares morder como um fruto.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

abismos de começo e de fins

Andei o dia todo com um abismo na garganta que se dilata e incomoda na proporção em que se aproxima a hora de nos falarmos. Interagir com o outro decorre sempre sob a rede mais ou menos ampla e segura de expectivas socialmente buriladas. E eu não sei o que esperar da nossa conversa. Eu nem sei se tu esperas uma conversa. E esta ausência de rede, de não saber o que o que esperar está a dar de mim...

Um bom encontro é de dois

Tenho uma relação estranha com a música que se foi transformando ao longo dos anos. Despertei bastante tarde para esse universo, tinha dezoito anos, estava no primeiro ano da faculdade e foi pela mão, ou melhor pelo ouvido, do meu primeiro namorado que o interesse por esse domínio se foi afirmando. Até essa altura ouvia música na rádio, sem aprofundar grandes conhecimentos por grupos e correntes musicais. Não deixa de ser estranho porque há um papel que a música costuma cumprir entre a população adolescente de identificação grupal. Tal não aconteceu, o que só confirma o meu carácter não-gregário!
Enfim, com o-primeiro-namorado fui descobrindo alguns baluartes musicais e culturais sobretudo dos anos oitenta, fui ganhamdo o gosto pela compra de discos, pela leitura do bocklet e começando a seguir os desenvolvimentos de algusn grupos ou interpretes que interessavam. Por restrições financeiras tive de deixar o hábito de comprar discos (viver sozinha tem destas coisas) e fui cingindo a minha atenção a alguma música brasileira. Actualmente, não faço a mínima ideia do que se passa no campo da música e regressei à rádio. Com a rádio desenvolvo uma relação que normalmente coincide com os momentos de condução diária, vou ouvindo as notícias, o trânsito e depois como as play lists que nos impingem. Na maioria das vezes não presto muito atenção às músicas que passam, mas o meu ouvido assimila-as e vou cantarolando sem saber muito bem o que digo. Quando me faço acompanhar de alguém e começo a cantarolar não é raro ouvir com espanto "gostas disto?!" e eu digo "Não", "Mas estás a cantar", "é, mas não gosto!".
Com a rádio há outra coisa que às vezes acontece e que acho deliciosa, que é pensar numa das músicas que passam 10 vezes ao dia, antes de ligar o rádio e quando o ligo, tcharam, lá está ela.
Aconteceu-me isso hoje de manhã com uma música em que tenho pensado:

É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte
Não tenho o que dizer

São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará
Tudo o que quer me dar

É demais
É pesado
Não há paz
Tudo o que quer de mim

Irreais
Expectativas
Desleais
É pesado
Mesmo, se segure
Quero que se cure
Dessa pessoa
Que o aconselha
Há um desencontro

Veja por esse ponto
Há tantas pessoas especiais
Um bom encontro é de dois
(Vanessa da Mata e Ben Harper)


Não acredito em destinos e coincidências, mas vacilo quando acontecem e se concretizam inexplicavelmente. Um bom encontro é de dois e não nos temos encontrado, se calhar é só isso, uma espera desmesurada de ti, talvez tenha acabado e seja altura de dizer boa sorte...

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

De castigo, sms curto e seco

Não percebo a tua distância. A tua indiferença... à chuva, ao trabalho, ao mundo e, sobretudo, a mim. Esperei que ligasses ontem. Não, mentira. Esperei que aparecesses lá em cá casa de surpresa, como costumavas fazer. Sabia que não vinhas. Repetia vezes sem conta na minha cabeça "ele não vem" e, no entanto, apanhava a roupa do chão, arrumava os lençóis da cama e punha toalhas lavadas na casa de banho, enquanto me re-mentia, "eu sei que ele não vem e não estou a fazer nada disto para o receber". E as horas passavam, e tu não vinhas, e as lágrimas corriam-me grossas pelas faces, e depositavam-se num chão mais ou menos empoeirado, e lágrima a lágrima, enquanto tempo passava, e tu não vinhas, desatei num choro infantil, desesperado, convulsivo.
Queria tanto que viesses hoje. Hoje, eu precisava tanto que viesses, que me surpreendesses.
Não vou enviar sms de beijos e bons sonhos. Não, não vou. E ele vai perceber. Vai perceber que devia ter vindo. Vai entender que apanhei a roupa do chão, que ajeitei os lençóis e troquei as tolhas, porque ele devia ter aparecido. Claro que não estava combinado, mas se eu não lhe enviar a sms ele vai perceber que faltou ao que não estava combinado, mas que devia ter entendido. Vais, não vais? Ou será que nem vais dar conta ? Ou será que vais adormecer normalmente e de manhã não sentirás falta de nada ? Vou ter que falar, não é? Vou ter que por em palavras toda a falta que eu sinto de ti, mesmo quando nos falamos todos os dias? E vou enviar a sms, como tenho feito ao longo destes 4 meses, não é?
Está bem, mas vai ser curto e seco. E não vou estar à espera de uma reacção. Vou só escrever o sms curto e seco e não vou esperar nada, nada. O telefone toca.
Já estavas a dormir?
(Finjo voz de cama e de sono) .
Desculpa acordar-te.
Não faz mal, sabes que não tenho dificuldades em adormecer.
Fizeste bem em ter ligado. Fizeste tão bem em ter ligado, em renovar o stock da minha esperança... espero por ti, até novo ataque de insegurança e desepero.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

E no meio o que é que há?

Gosto de me definir como uma criatura racional, ponderada, analítica e lógica (bom, tem dias!). Na verdade, penso que faço uso desse modelo de actuação-reflexão em diversas esferas da vida e que sou muito bem sucedida com isso. Foi assim no meu percurso escolar, é assim no meu trabalho, nas minhas relações familiares e de amizade... Há apenas um domínio em que me sinto completamente à toa e onde este infalível paradigma de vida dá claros sinais de falência: no amor (ou no que anda lá perto).

Vamos lá ver, se eu me explico. Eu não tenho nenhum problema em identificar o que sinto, o que quero e o que espero do outro. Aliás, se a coisa se resolvesse unilateralmente tudo rolava muito bem... Mas, não. Aqui só impera mesmo o team work. E fico desconcertada com a interlocução que tenho encontrado e com a respectiva hermenêutica que a relação exige. Não sei o que significa a existência de duas grandes gavetas no armário masculino das relações:

- há uma gaveta pequenina, onde cabe "a namorada". Bom, na verdade essa gaveta está vazia e pode albergar alguém... MAS, será, sem dúvida, para progenitora da prole, com assento marcado no almoço de domingo em casa dos pais.

- depois, há o gavetão das "AMIGAS". E aqui é o puro caos, onde se arrumam os one night stand mais ou menos etilizados, as curtes de férias, os casos mais ou menos coloridos de razoável duração cronológica e, claro, as "quase-namoradas-que-são-amigas-porque-namorada-só-tive-mesmo-uma"


Para quando uma gaveta intermédia (ou um organizador de gavetas da IKEA, pronto!)?