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segunda-feira, 7 de julho de 2008

Intimidade



Na semana que passou, ao final do dia, perdi-me em busca de uma localidade remota algures na periferia do Porto. Conduzia um pouco à toa, achando que as placas de informação me elucidariam e que a hora de ponta não me atrapalharia. Quando percebi que me encontrava num ponto sem referência dei a busca por terminada e querendo regressar a terra conhecida, vi-me forçada a resgatar um caminho recentemente abandonado que percorria unicamente para encontrar os braços que desejava. Refazer esse caminho, conduziu-me à formulação de pensamentos tontos. Desfilavam no tapete da minha memória os impulsos que outrora me comandavam os passos naquele percurso, os diferentes trajes de desejo com que o corpo se vestia de latejo e palpitação… Aqueles pensamentos magnetizavam aquele local, impeliam-me para aquela casa, “só para confirmar se ela ainda lá estaria”. Avistar aquele carro, confirmando a continuação daquela presença, já descontínua em mim… Prosseguia em controverso colóquio comigo mesma: ir; não ir; vantagens; desvantagens… Até que tu provas, mais uma vez, que as coincidências existem. Tu provas, mais uma vez, que me adivinhas, mesmo sem saberes. Tu resgataste-me desse redemoinho lodacento da memória e atiras-me para um futuro certo e próximo, quente e aconchegante… Peixe grelhado e arroz de tomate cozinhado por ti, para mim?! É claro que quero jantar contigo, só quero jantar contigo…

Tenho resistido à tentação de escrever sobre ti. Tenho tentado evitar depositar as palavras que podem empilhar-se e formar um “nós”. Sim, é sobretudo isso. Parece-me que se não escrever, se não falar do assunto ele não se torna coisa, não assume uma verdadeira existência. E é, tão só, porque me assusta a ideia de perda. Aquela ideia de perda cujo horizonte traçaste com umas, simples, irrepetíveis (quem sabe, até, ocas), palavras. Aquela assustadora e injusta ideia de perder o que não se viveu. Mas, é justamente a viver, a agir, a fazer que temos criado um “nós”, quase sem reticências. Não tenho, nem desejo (salvo em alguns momentos de puro terror de naufrágio) contornar a acção, evitar os momentos, os nossos instantes em que essas palavras parecem um idioma estranho sem qualquer correspondência à realidade. Até agora, a única coisa que pedes é que seja a vontade a ditar a rotina dos nossos encontros: a minha e a tua. Tem sido assim e tem sido tão bom… E foi desse modo que o peixe ganhou cor e gosto, que os misteriosos grãos brancos se imiscuíram crescentemente com a água e o tomate, que o vinho se elegeu para molhar a conversa que entre nós já não cessa. E foi desse modo que esboçamos uma dança quando o Paul Desmond tocava Adeus, que sentamos em uníssono os corpos no sofá e que as mãos se tocaram como faíscas que tudo o resto incendeiam. E foi num rasto de fogo, de terra queimada onde muito mais promete germinar, que nos quedamos na tua cama, como se o meu corpo ali pertencesse e os teus braços tivessem sido concebidos para me embalar até adormecer. Amanheceríamos juntos para um dia comum, para a banalidade que nos preenche e caracteriza no compasso regular e previsível de todos os dias. Enganar o despertador, fintando as horas de levantar, alternar banhos, tomar o pequeno-almoço, fitar-te no elevador e desejar-te: um bom dia… como se todos os dias tivessem sido assim, mas desconhecendo (porque nunca se conhece) como serão os próximos. Quero-te assim também, nessa normalidade idêntica, sem nada de extraordinário, nesse desfiar dos dias que se contam iguais e cujas diferenças apenas se vislumbram através de uma inquietante e rara proximidade, através da frágil teia de intimidade que sem molde e sem planos urdimos sem querer.

Foto: "A inversão do tempo" de Ana Franco.

domingo, 8 de junho de 2008

(des)acertos


Desconcertas-me e isso desconserta-me...
Foto: 2 in motion III, de DDiArte


terça-feira, 20 de maio de 2008

Cansa-me (outra vez...quem sabe)



Cansa-me o que se repete, mesmo quando não é igual. Cansa-me o movimento idêntico, a replicação cansada do gesto desacreditado. Cansa-me o precário equilíbrio oscilante, negociado sem rede. Cansam-me as falsas partidas e as advertências (sempre) tardias do juiz de linha, porque o empenho já se encontrava depositado em todo o mais ínfimo músculo em tensão. Hoje, não quero mais falsos começos. Hoje, não quero mais fins disfarçados de (re)inícios requentados, celebrados com a cerimónia da refeição em casa estranha. Amanhã, não sei… Mas, hoje é o desafio da permanência provisória, da perenidade temporária, do infinito a prazo que quero aprender.
Ainda assim, custa dizer adeus, quando o sorriso de um olá recente ainda jaz na boca.

Foto: A Escada do Desespero de Arlinda Mestre

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O tempo do presente

Um presente transporta sempre consigo uma dedicatória acoplada. Com uma oferenda, estabelecemos uma ponte física entre nós e o Outro: há uma coisa, escolhida, tocada por nós que se desloca até ao toque do Outro, escolhido óbvio do nosso desejo, da nossa vontade, da nossa preferência. A intenção da dedicação está lá também, muda ou em letras capitalmente escritas. Tem de ser medida até à mais ínfima grama: não a queremos inócua e sem significado, mas também não a desejamos traidora, delatora total do delírio em que nos encontramos.

O meu presente foi recebido na sexta-feira e, nesse dia, o encontro deu-se sem marcação prévia, não por obra e graça do destino, mas porque os passos, nesta cidade, tendem a ser decalcadamente idênticos. Esqueçamos a explicação lógica e agarremo-nos à deslumbrante força da racionalidade do destino. Sem falar, sem combinar, estamos aqui, outra vez, no espaço onde a dança do corpo nos juntou. Dançamos novamente… “Tinha acabado de te enviar uma mensagem…” Afirmação sincronicamente confirmada pela vibração sentida no bolso da trás das minhas calças. “Mais uma vez, estou neste antro de perdição e só penso em ti. Só em Ti! Quem me dera estares aqui. Vem ter comigo! Beijos… dos nossos”. E eu, ali estava, antecipando as ordens desconhecidas daquela sms, ainda incrédula com aquela coincidência, mais do que provável…





Fim de festa. Dia aberto na cidade ainda a espreguiçar-se, ainda a esboçar movimentos tímidos e frios. Pequeno-almoço na confeitaria possível, junto ao ícone do burgo. Falamos da coincidência deste encontro. Falamos da dedicatória acoplada ao presente que te havia enviado… Os olhos, agora humedecidos, denunciam o emocionado agrado que ele te causou. A boca, ainda lenta e adormecida pelo álcool, adverte cautela, pronuncia-se sobre “o cuidado” que eu devo ter… O indizivelmente paternalista, “tem cuidado contigo”, costuma servir uma de duas funções: uma vez dito, iliba o emissor de eventuais responsabilidades sobre o que possa vir a acontecer, por outro lado, o cuidado feito voz, não escolhe destinatário, é uma advertência para quem o diz também (não me posso esquecer que preciso ter cuidado).

Seguem-se mais frases habitualmente usadas em enredos desta natureza: “não tenho nada para dar”; “não tenho expectativas”; “não me quero envolver”. Surge a vaga e insuficiente explicação da dor passada, como sustentáculo da postura que se procura consolidar no presente e no futuro. Como se a vida se amordaçasse com os frágeis açaimes que lhe destinamos…

Neste caminho, duas vias possíveis emergem com clareza. Vou ignorar, registar e assobiar para o lado, é a minha história e quem define o argumento sou eu. Escolho a outra e insisto. Eu também não sei o que tenho para dar. A última coisa que procurava e achava que iria encontrar neste momento seria a intenção de me envolver. Mas, eu tenho vontade de me deixar levar, de me deixar ir nesta história, cujo início anunciava precocemente um fim. E não tem sido assim, não é? Então, o que eu te pergunto é o que é que tencionas fazer quando, e se, o momento se dilatar para outros espaços: vais decepá-lo ou permitir que ele cresça, sem agenda e programa definido?

Há uns olhos que me fitam com incredulidade, há um abraço que me ampara o corpo que treme no declive dessa manhã fria. “Ainda por cima, és brilhante, és tão inteligente. Não podias ser uma burrinha qualquer?!”. Sorrio, afastando o embaraço com uma piada transparente: “Tu é que insistes em ignorar as minhas raízes capilarmente loiras”.

Olha para mim, a ser burra que nem um cepo e a dar-te a mão e a puxar-te para o interior do táxi, enquanto anuncio a minha morada. Olha para a torre dos Clérigos que nos observa lá do alto, enquanto se interroga: por que é as pessoas insistem em complicar o que é simples, o que é claro, por que é se refugiam em esconderijos frágeis e armaduras inúteis… A Torre a antecipar-se à minha espiral reflexiva e adivinhar a pena que sentiria por saber que este não é o momento para eu resgatar futuros, junto a quem insiste por decreto, em não descolar de passados e a permitir-se apenas mergulhar timidamente no cálido líquido do presente. A Torre a lamentar, antes de mim, que não me apeteça lançar-me nesse longo e potenciamente infrutífero empreendimento demonstrativo de que 1 e 1, também podem ser 3...

Foto: Paulo Pimenta

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Especulativamente

Talvez com excepção do reduto bolsista, creio que a actividade especulativa, raramente gera dividendos proveitosos. Dou comigo a fazê-lo, sem ganhar nada, mas nada, com isso…

Facto: Enviei a dita cartinha e o dito cedêzinho, a quem de direito e…

Espiral especulativa: Os CTT são um serviço terceiro-mundista, funcionando com atrasos colossais e ainda não chegou. Ou... Os CTT estão calibrados como um relógio suíço e, no dia seguinte, a encomenda repousava na caixa do destinatário, mas… A carta chegou e ele ainda não foi ver o correio… resta esperar. Ou... A carta chegou, ele foi ver o correio e… Pensou, “iac, que ideia peregrina”, nunca mais quero falar com esta maluca". Ou... Pensou “iac, que ideia peregrina”, ver se lhe pergunto o que lhe passou pela cabeça, mas mais tarde, quando a medicação lhe estiver a fazer efeito". Ou... Pensou, “olha, é fofo, que ideia gira, mulher linda, brilhante, sublime… Como é que lhe hei-de retribuir… Vou começar por me prostrar aos seus pés, subindo por aí a fora..."

Puff! Vou ali, resgatar as minhas economias, no valor de 5 euros e comprar duas acções da Galp, pelo menos sei que aí estarei em alta.

Foto: APF (ou lá o que é)...

terça-feira, 13 de maio de 2008

(des)Encaixilhando


Não me contento com momentos emoldurados, dependurados nas frágeis curvas de ses, estrategicamente colocados nos buracos das paredes, por forma a ocultarem a profundidade de tudo o que poderiam ter sido. Tendo a agarrar os momentos com as duas mãos, espremendo-os até às últimas gotas de possibilidade. Arranco-lhes promessas que ostento como os limites manifestos de um horizonte de possíveis.
Não adianta, não durmo tranquila, não me alimento devidamente, não sossego, sabendo que ali, atrás daquela tela, se encontra uma fractura que grita por ser vivida. Ao contrário do quadro, a fractura raramente é bela. Está ali, rachando a parede e abrindo caminho para uma praia paradisíaca ou para um esgoto a céu aberto. Mas, é tão mais do que o quadro… tem cheiro, tem textura, tem sabor, tem movimento e ruído, com modulações, com o inexpectável, com tudo o que escapa à frame do momento …
Curiosamente, não me arrependo de nenhuma das paredes escavacadas da minha casa. Quando regresso, reponho o quadro, tapo as fendas e durmo apaziaguada, porque ali está somente um quadro, belo, muito belo, belíssimo… mas um quadro que eu já vi(vi).

Nota: Intróito auto-justificativo para o facto de ter "cumprido" com a minha "parte". Se os CTT cumprirem com a sua função, amanhã, há um senhor que, entre a Dica da Semana, a factura do Condomínio e os omnipresentes panfletos da Telepizza/Pizza Hut, receberá um disco do João Gilberto acompanhado de uma carta assim a puxar para (quase) aquele ridículo de que falava o Pessoa. Quando eu me sentir ridícula e com vontade de me enfiar num armário de tanto embaraço, venho aqui, leio a postazinha e... começo a escolher uma, das tantas pontes desta cidade, para me atirar... :)
Foto: Hugo Tinoco

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Quando os pés não descolam do chão

Não sei explicar muito bem o que acontece no agora, no já. Não sei o que é, não sei o que vale. Desconheço quanto pesa. Ignoro se levita ou se deve ser enterrado.

Sei que é uma inesperada nesga de luz cintilante que, comandada por uma vontade sem freios, nem normas, rasga o uniforme cinzento e previsível com que se farda o quotidiano.

É tão… perfeito, é isso! É tão perfeito que não pode ser real, não pode ser palpável, não pode ser a bonança. Porque, se é, então, entretenho-me a antecipar a tempestade e começo a cerrar janelas, a verificar o ferrolho da porta, a contar os mantimentos.

Contenho-me.
As mãos procuraram papel e caneta de tinta preta e desenharam coisas tontas que receio não conseguir partilhar contigo:

J.,
Obrigada, é uma daquelas palavras gastas de tanto uso inútil, circunstancial e oco, porque desprovido de um genuíno sentido de agradecimento. Na realidade, agradecer também não era exactamente o meu propósito. Mas, as palavras têm estas limitações, de apenas esboçarem de uma forma muito imperfeita e grosseira o que pensamos e sentimos.
Feita esta ressalva, aquilo que eu quero dizer, na impossibilidade de inventar uma palavra mais fiel ao que pretendo exprimir, é: obrigada…
Pelas inesperadas, surpreendentes e maravilhosas horas, em que o prazer desaguou em todos os minutos como um oceano, inundando e diluindo o tempo, arrastando-me e fazendo-me transbordar de mim, em ti.
Envio um João (mas este é Gilberto) e, apesar de me fazer viajar, planando na sua voz doce, cheia e sublime, fica a anos luz, do deleite em que tu, mesmo sem palavras, me submerges de uma forma plena, completa… perfeita!

Perdi a conta aos bilhetes, às cartas, às surpresas que, por receio do ridículo, do medo de ser desmesurada, deixei de partilhar com quem de direito. Os destinatários foram-se todos. Mais leves, porque eu fiquei com os excessos, em caixas em que ainda tropeço. Não ficaram por se encontrarem mais ligeiros, não deixaram de partir pelo peso na bagagem e eu fiquei sempre com algo a mais, que não me pertence, a não ser que seja partilhado.

To send or not to send, talvez dependa disto: de deixar de me tentar encaixar naquilo que eu acho que o outro quer, deseja ou projecta. Eu sou assim, desmedida e ridiculamente romântica, sonhadora, arrebatada... Talvez, quem não goste ou não possua caixas para partilhar os excessos (com medos ou sem eles)... Talvez, não deva ficar...
Foto: "Envelhece-se mais devagar ao anoitecer" de Mariah.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

A sedução da circunstância III

A confirmação do nosso encontro foi cronologicamente antecedida pela necessária preparação que a possibilidade desse acontecimento exigia. Na ausência de intimidade e do filtro protector do afecto, as pequenas manchas não têm lugar. São nódoas observadas à luz branca e crua da retina, são defeitos sem história, são pontos sem lastro que, sem clemência, se julgam. O ritual de preparação, da apresentação do eu ao outro, é, assim, um conjunto de actos sequenciados, comandados pelo prazer egoísta da dissimulação. Quero-me desejável, ao olhar nos teus olhos, encontrando o reflexo que me pertence e que espero que me seja devolvido. É nesta ânsia que a pele se alisa e perfuma, que, com especial cuidado, os cabelos se lavam e penteiam, que as unhas se moldam como pequenas garras, que as peças de lingerie, assentes no corpo, finalmente se encontram, casadas com um ente da mesma cor e espécie. A alegria da festa começa, assim, bem antes, forçando o corpo a um estágio antecipado do prazer que se adivinha.

O dia passou com paragens frequentes nas imagens desfocadas de ti. Forçava-me a desenhar-te a face, mas as tuas feições teimavam em permanecer ocultas. Recordo com facilidade os nomes, mas não consigo guardar os rostos (a miopia sem óculos que me acompanha deve ter algo a dizer sobre isto). Procurava alinhar as outras pistas que tinha sobre ti. A textura das tuas mãos? Disso, eu recordava-me. Mas, o que é que indicava? Em que se ocupariam elas nos dias comuns? Não sabia. Nada sabia de ti e queria que esse estado primitivo de ignorância fosse preservado até ao limite possível da sua pureza.

Saí do trabalho sem pressa e, desprovida de um sentido de orientação geográfico operativo, lancei-me na confusão labiríntica do concelho peri-urbano da tua morada. Tinha decidido que não me faria anunciar com um ridículo telefonema em que afirmasse estar perdida. Portanto, foi já com a luz do fim do dia sumida entre as nuvens e acompanhada da chuva que, tal como eu, persistia na sua tarefa, que me encontrei no ponto certo. Deixei o carro e ensaiei o passo em direcção ao número da tua porta. Agora, só agora, a inquietação e o nervosismo se faziam coisa pesadamente depositada no estômago. Aligeirava-o com o exercício habitual de racionalizar a vida e as suas opções.

A campainha tocou. A porta da entrada abriu-se. O elevador avançou para o primeiro andar. No meu lado esquerdo, uma nesga de luz denunciava uma porta entreaberta para me receber. Segundos, não mais do que isso, foi o tempo que ambos tivemos para processar a informação do exame visual que decorria. O resultado seria imediato e eu, tentava adivinhar a posição da minha avaliação na tua escala. (Acho que passei… Tu também não estiveste nada mal.)

Chegada ali, já havia pago a portagem que me permitia transpor a soleira da tua porta. Tinha decidido nada dizer, mas traiu-me a sofreguidão e o desconforto miudinho das situações não dominadas. Não resisti a escudar-me ridiculamente num “não foi nada fácil chegar a tua casa…”. Sorrias, nervoso também, “Imagino que não…” Estancava-se aqui a corrente de civilidade. Podemos falar do tempo, mas do nosso, da tempestade que nos percorre e que ameaça desabarmo-nos.

Ensaia-se a medo um recomeço. Onde é que havíamos ficado mesmo? Onde é que eu tinha deixado as minhas mãos? Onde é que me esqueci do beijo? Sim, foi aí, e aí, e ali também. Como se os dias e as noites não nos tivessem afastado, retomamos a dança, agora, sem música. Recomeçamos essa conversa perfeita que nunca teve palavras. Senhor da pista, conduzias-me por corredores incógnitos, cujas paredes eu tacteava para não me perder no frágil equilíbrio que tentávamos manter. Fomos desaguar ao quarto onde se entranhavam alguns pormenores daquele espaço, preparado por ti, para aquele tempo: um cheiro cítrico e fresco, a luz franzina e esguia das velas, a cama feita com rigor… (afinal também te preparaste, pensei…)

Sem palavras, libertamo-nos das roupas. Sem roupas, libertamo-nos da pele. Éramos bolas de desejo concentrado, corpo em carne viva, que se ateava e inflamava mesmo em movimentos mínimos e meros sussurros. Achei graça ao teu diluído esclarecimento de músico que, intuindo um público ignorante da partitura, se apressa a travar aplausos no fim do primeiro andamento. “Aplaude-se no fim, menina”. O concerto continuaria animado pela vontade férrea de me ver ora rendida, ora combatente sem tréguas face a ti. Tal como num concerto, impõe-se um intervalo em que outras capitais necessidades se satisfazem. Morder alguma coisa? Matar a sede? Fumar um cigarro? A pausa é também o espaço de sociabilidade por excelência No intervalo, vestimos a palavra e agora, sim, mais cobertos e compostos, emerge o desconforto da conversa que se força e do nada tem de brotar. No amplo salão do verbo, éramos crianças descoordenadas e trôpegas que, a custo, ensaiam um passo. Primeiro um pé, depois o outro, agora, o entusiasmo deslumbrado do movimento com mais rapidez para, em seguida, nos espalharmos ao comprido num silêncio duro.

“É tarde, acho que vou andando”, disse, esperando que assim se findasse a pausa social. “Podias ficar mais um bocadinho…”. “Mais um bocadinho? Pergunto, enquanto me desconjunto de novo no teu colo… É, mais um bocadinho, então… Até se acender a luz e olhar em volta. Até ser hora de recolher as ruínas e abrigar o corpo nos despojos da roupa confusa que o chão oferece. Mais um bocadinho e chego a casa. Mais um bocadinho e desconfio que, de uma forma ou de outra, voltaremos a alinhar-nos, renovando as teias de perpétuos círculos de sedução que ora se ateiam, ora se extinguem. Mas, agora estamos por nossa conta. Somos nós e não a circunstância. Começas tu?

Foto: Sonhos de Sal de Paulo César


sexta-feira, 18 de abril de 2008

A sedução da circunstância II

Convalescendo da súbita e intensa proximidade, injectei a devida distância entre nós. Dirigi-me à porta, buscando o ar, que me exercitasse os pulmões, e um caminho, onde um outro passo se insuflasse. O teu sorriso barrou-me a saída. Intercepta-me a tua repetida rejeição do “Não”.

Detenho-me nesse instante que há anos me intriga e fascina. A (intrinsecamente masculina?) capacidade de, a partir dos “Nãos”, improvisar degraus e construir escadas, por onde se esgueira e eleva a vontade. Onde se aprende a ouvir “não” e ainda assim prosseguir? Em que bancos da escola foi matéria leccionada essa indomável persistência? Em que manuais se explica e se ensina a resolução das quotidianas equações potencialmente elevadas à recusa?
Fascina-te?
Sim, deslumbra-me isso em ti, e em ti, e no outro e naquele… Essa hábil arte de contornar, de ignorar, de insistir, de reescrever essa palavra que com N tudo finda e, no entanto, onde tudo pode começar. Porque eu sucumbo quando apenas a intuo. Porque vacilo se apenas lhe imagino os contornos. Parece-me tão grande, tão pesada… Onde é que a ponho? Onde é que a guardo? Onde é que a escondo, uma vez que me embaraça? Um “Não” é desmedido e colossal. Portanto, admiro todos os que, dispondo apenas de uma discreta algibeira, generosamente se oferecem para o albergar.

Ainda ofuscados, os olhos tocaram-se pela primeira vez. Ocorreu-te que sou mulher e que, agora, banhada em luz e discernimento, caíra no desempenho funcional do meu papel: tímida, recatada, pudica, falsa virgem à procura de um véu.
“Então, pelo menos dá-me o teu contacto. Amanhã podíamos combinar um café… ou assim…”.

“… um café ou assim…” – pensei. É impagável o vértice de sociabilidade que se deposita e se bebe em tão pequena chávena…

“Está bem.” Tinhas agora um nome e uma combinação numérica que accionei, para que se desbloqueasse também o meu anonimato. O meu telefonema a escassos centímetros de ti e um emaranhado de números e piscarem digitalmente no teu visor… “Chamo-me Clepsydra. Se amanhã, ainda tiveres a mesma vontade, então, liga-me.”
E com uma rara agilidade felina saltei dos teus braços para o parapeito da minha janela, enrosquei-me numa cesta, embalando a volúpia ainda desperta.

O dia seguinte passou na velocidade e nos rituais com se escreve Domingo. Destoava a ridícula e inflamada inquietação adolescente que ausência do teu contacto produzia. Teria a tua vontade desvanecido nessa manhã limpa? Não era relevante. À noite, a minha ainda ali estava, acicatada e viva, convidando-me a um novo papel. Sejamos predadores e entremos no jogo… Não há? Então, inventa-se…:
“Um dia destes, apetecia-me retomar e completar o ponto em ontem ficamos…” (sem perguntar, só afirmando – truques baratos de quem ainda não aprendeu a deixar espaço no bolso para guardar um Não…)
“Passei o dia todo a pensar nisso e agora ainda fiquei com mais vontade. Um dia destes, por mim já amanhã, quando quiseres…”

Agradou-me… A resposta pronta. O sim apresentado em palavras completas e frases que se alinhavam com pontuação - não posso evitá-lo, em tempos de xx’s e kk’s, comove-me o domínio (ainda que rudimentar) da língua. A ausência da despedida, habitualmente servida de bjos e jinhos e jocas... Surpreendeu-me agradavelmente a tua imediata compreensão do jogo sem regras que te propunha.

Um dia destes, irrompeu numa manhã com sol: “e se um dia destes fosse hoje?”. Brindaste-me com o que achavas que eu consideraria adequado, com o que pensavas que teria faltado na noite em que a dança nos juntou. Expliquei-te, “num bar, nós já nos encontramos. Hoje, pensava num espaço mais recatado… “ Novamente em jogo, “Então, vem ter a minha casa. Rua (perdida algures entre tantas outras, n.º xx). A partir das 19 horas estou lá. Aguardo-te ansiosamente.”
“Ansiosamente, chegarei lá. Até ti…”


Foto: S/N, de Luís Mendonça

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A sedução da circunstância I

Já era tarde, muito tarde. E a noite, para surpresa e agrado de todos, tinha-se feito alegre, vibrante e ritmada. Os anos 80 destilavam vapores intensos, recordando a memória de letras que já se julgavam esquecidas. Os amigos iam cedendo ao cansaço e ao peso etílico que as garrafas vazias haviam depositado no corpo. Ainda assim, o chão teimava em permanecer frenético, rodopiante e escorregadio. Quase certa do meu isolamento, abandonei a vista, enquanto os olhos se cerravam. Ficava só a música, ficava só o corpo.

A tua silhueta, camuflada pelo som, pela intermitência das luzes e das sombras e pela minha (deliberada) distracção, encontrava-se ali, como um astro, em alinhamento cósmico com a minha votada solidão. Não foi imediato. Ainda à distância, a percepção que um do outro tomávamos e a consciência partilhada das engrenagens desse processo dilatou uns instantes, preenchendo o momento. Consumado o conhecimento, plantou-se o leve e doce desconforto da confissão assinada da corte. A comunicação feita coisa, feita matéria, inegavelmente vertida em forma moldável para a receber, nascia ali. Ainda ténue. Ainda tímida. Sempre ambígua...

A distância encurtava-se, porque os corpos agora soluçavam a uma só voz, a do nosso (possível) entendimento. Os joelhos faíscam quando se tocam, ainda sem querer. Os dedos roçam-se em coreografia sem ensaio prévio, mas com passos sabidos de cor. Eu não recuo e tu também não. Repetem-se os toques. Improvisam-se avanços. O espaço some-se no encaixar das nossas pernas. Perfeitas, como peças desenhadas desde o início para tal fim. A tua mão descobre a depressão da minha cintura, fincando-se na fronteira da minha anca. Ainda é leve e inofensiva. Aos poucos, ditará a sua sólida deliberação, acercando-me ainda mais de ti. Estamos agora prensados um no outro, reféns do teu desejo firme que me busca e que eu acho, com uma vontade que te engole entre as minhas coxas.

A linha do teu queixo revista-me a curva do pescoço. Encontra o arrepio em fuga, mas prossegue, mandatada por uma autoridade que nos escapa. A respiração encontra-se agora próxima, visível, incontornável. Mas os olhos permanecem fechados, votando na reeleição da magia e da ilusão. Poder ao demiurgo que nos comanda, accionando os fios invisíveis do desejo. Tacteia-me os lábios, invade-me sem pedir permissão e faz-me refém do teu beijo e raptora da tua vontade.

Ainda há as mãos… As minhas mãos são o elemento mais insubordinado do corpo, presas por um receio sem nome, por um pudor sem sentido, recusam acatar a ordem de te tocar. Contrafeitos, os dedos vasculham-te a nuca, emaranhando-se no teu cabelo sem cor. É nas mãos que se encontra a resistência! É com elas que, aos poucos, e a custo te afasto... São as mãos que agora me articulam a boca, depositando as palavras que espalharei nos teus ouvidos: ”... desculpa, mas acho melhor ir-me embora…
Foto: S/N, de abrito
(to be continued... as it was)