quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Irritações que ainda não passaram

Sabemos que o limiar da insanidade está próximo quando começamos a acreditar nas mentiras que deliberadamente construímos.
Não consegui vir trabalhar de manhã. Ontem, não te evitei. Cruzámo-nos nos tempos habituais, como se tudo estivesse normal. O dia estava lindo e, pensando que não me cruzaria contigo (ou se calhar, alimentando a secreta esperança de que tal acontecesse), ousei colocar um vestido e prender o cabelo (adoravas ver-me de vestido e com o pescoço desnudo...) E, não sei... Não sei se por estar sol, se por ter um vestido, se por não te ter evitado (tal como me acusaste de o fazer)... acho que pensei que tudo isso fizesse diferença... achei que ias ligar, que finalmente vinhas ter comigo... Eu sei que é tolo, mas era isso que secretamente esperava e foi isso que objectivamente não se passou. Foi tão difícil regressar a casa sem um sinal teu. Foi tão angustiante confrontar-me com as expectativas pueris que construí durante o dia. Adiei até ao limite a hora de me deitar e, consequentemente, fui transferindo de modo sucessivo a hora de me levantar. Hoje não te queria ver, sabia que hoje não te queria ver e queria que tu soubesses que hoje eu não te queria ver. Inventei um mal estar nocturno para justificar a minha ausência no emprego de manhã. E o que é estranho é que tenho passado o dia a chá, evitando café e comida com gordura, porque estive "mal" durante a noite. É a insanidade tornada facto...
Irrita-me o tempo que teima em não passar ao ritmo a que gostaria de te esquecer. Irrita-me o pouco empenho que as actividades diárias me exigem, não me permitindo tirar-te da minha cabeça. Irrita-me as centenas de conversas imaginadas que já tive contigo. Irrita-me sentir que os meus passos se encontram condicionados pela busca forçada do não te ver. E nesse esforço de não te encontrar, deparo-me constantemente contigo. Irrita-me sentir que não controlo e não influo em nada do que rodeia. Irrita-me não saber o que pensas, o que sentes. Irrita-me o medo que me assola antes de ir dormir, os momentos cheios de ti, quando me enrolo longamente nos lençóis na esperança vã de adormecer automaticamente, de não sonhar contigo e desejar acordar numa manhã mais limpa, em que tudo se repete, mas de uma forma cada vez mais desfocada e longínqua, menos dolorosa e sofrida. Para quando?

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