segunda-feira, 2 de junho de 2008

Matar-nos mais um bocadinho



Há uma pedra que cresce e que me afasta de ti. Alimenta-se dos sedimentos de silêncio e de incomunicação que depositamos entre nós. Agigantou-se de tal modo, que não nos permite estar na mesma divisão. Dilatou-se ao ponto de me expulsar da nossa cama, porque não cabemos lá os três. E tu insistes em não a quebrar. Teimas em não perceber que a minha força diminui e que os golpes que desfiro nessa montanha são cada vez mais inócuos e inofensivos. Viras a cara para não perceber que esse pedregulho me entala nas paredes da nossa casa, me esmaga na estreiteza da minha garganta. Desespera-me o esforço do gesto cansado que procura antecipar o que queres, o que te faz feliz. Desgasta-me o estado de alerta que não me deixa dormir, porque aguardo o sobressalto e a agitação em que ficarei, assim que ouvir a tua chave na porta, assim que o mundo declarar que vais invadir e que, a partir daí, se inicia a guerrilha terrorista da palavra, do movimento, do silêncio, da quietude que, a partir do inesperado, me ataca e transforma esta serenidade fria de alumínio numa lâmina que me atravessa a garganta. E tu, até aí, não dizes nada. Tu, depois disso, nada dizes. Nada muda. Colocamos a serenidade cortante em posição de ataque e volta tudo ao início, tudo a repetir-se: adivinhar-te, sobressaltar-me, vigiar-te, armadilhar-me, chorar-te, matar-nos mais um bocadinho...

Vivemos em tormento e tu insistes em virar a cara para o lado, para a frente para trás, para todo o lado menos para o animal em agonia em que nos transformamos. Porque não falas? Estarás bem assim? Será isto o que tu queres? Com certeza é, mas a mim não me basta. Para mim, basta! Para que acordes, para que percebas que isto assim não está bem, para que mudes provisoriamente durante duas semanas, para pelo menos ganhar um abraço, conquistar um olhar, arrancar-te uma palavra que me seja dirigida. Para que recordes o desespero gravado no corpo da última vez que estiveste próximo do abismo de me perder. Isso, essa memória vai fazer-te entender…

Mas não. Já não há memória, já não há medo, já não há olhar e os teus braços não se movem para me abraçar. Os teus braços apoiam-se na pedra que nos separa, enquanto arremessas balbuciantes "não sei” a tudo o que pergunto. O teu corpo instala-se nessa maldita laje que nos separa para me atirar, sem aviso prévio, essa indiferença e apatia que desconheço. "Não sei"?!? Mas, então, há quanto tempo "não sabes"? Há quanto tempo te arrastas para casa como quem caminha para um covil de lobos? Há quanto tempo me magoas propositadamente? Há quanto "não sabes" e ainda assim fingias surpresa quando te dizia que não estávamos bem, que precisávamos de conversar? Há quanto tempo "não sabes" e eu me consumo sozinha neste pântano de culpa por não nos querer assim?

E eu, que era só certezas, desfiz-me nesta espiral de loucura e irracionalidade que te vasculha os bolsos do casaco em busca de uma razão chamada Maria, Alexandra, Rosa... E eu, que só precisava de esboçar-te um olhar, indiciar-te um sorriso, para te ver rendido à paixão, perco-me neste catálogo de artifícios de sedução inúteis perante a força da tua indiferença. E eu, sempre a poupar-te, porque tu sofrerias mais, tu eras o eterno e desajeitado apaixonado. E eu, sem dúvida, acharia fácil deixar-te partir, até ao momento em que descobri que já cá não estavas, que tinhas abalado numa noite que desconheço, sem dizer adeus, como um ladrão, roubando-me o que me pertence: o poder de decretar a tua partida. Porque, agora, estou refém deste quarto vazio, confundindo as migalhas com o bolo, misturando o amor com o apego, Achando que, perante esta dor, a felicidade é adivinhar-te, sobressaltar-me, vigiar-te, armadilhar-me, chorar-te, matar-nos mais um bocadinho.

Não sei se a História e as histórias são pedagogos eficazes dos afectos, das emoções e dos sentimentos. A compaixão redigiu esta história que não é minha, mas podia ser, porque é de alguém muito próximo que nunca imaginaria (e que nunca se imaginaria) encontrar no enredo que vive nestes dias difíceis, lodosos e cinzentos. Que o sorriso, com que pintas de azul os dias, se desenhe novamente no teu rosto, D.
Foto: "Longest Journey" de Thorsten Jankowski.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Vuelvo al sur

Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor...

Era bom, não era?
Pois, mas este regresso ao sul, não para aquilo que o Piazzolla pensa…
Os compromissos laborais empurram-me para terras alentejanas. Se estivesse bom tempo, seguramente, passaria lá o fim-de-semana. Mas, com este Inverno que insiste em não perceber que já não é bem-vindo, não há nada a fazer. Excepto, claro… deliciar-me com aquele pão divino, as azeitonas, as migas, a açorda, a carninha de porco preto… nham, nham.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Crash

Após uma semana de subjectivo mal-estar difuso, de origem esparsa e vagamente compreendida, sucede-se o culminar objectivo e factual da indisposição.
A sexta-feira anunciava-se precocemente finita, após estadia prolongada em funesto local de trabalho. Os amigos, mais concretamente, o apelo genuíno de uma amiga, fizeram-me adiar o projecto acalentado de ir para casa às onze e meia (a uma sexta à noite!! Não me recordo da última vez que tal aconteceu). O acto de protelar o regresso a casa sucedeu-se hora após hora, acontecendo apenas às seis e meia da manhã. Já o dia despontava e as ruas húmidas e cinzentas da cidade acolhiam tímidos movimentos antagónicos: uns encetavam o desejado regresso a casa e o encontro já atrasado com o sono; outros, abandonavam os braços de Morfeu e iniciavam o desfile dos compromissos laborais.
Ia assim, absorta em pensamentos inócuos e incompletos, que estancavam num semáforo vermelho. Os semáforos costumam ser os locais onde testo os meus reflexos Fittipaldinescos: fico muito atenta às movimentações luminosas e, assim, que a mudança ocorre, o carro desloca-se com uma primeira ágil e desenvolta transformação de velocidade. Normalmente, sorrio satisfeita: fui a primeira a arrancar. Costuma durar pouco, porque o meu chasso utilitário rapidamente é ultrapassado por cilindradas capitalistas: Humpf! Já me tinha detido algumas vezes a pensar no movimento oposto: isto é, nos colegas que dilatam a permissão do verde, até ao amarelo intermitente e ao proibitivo vermelho. Estas vontades contrárias um dia haveriam de chocar. Um dia, foi no sábado…



Já em movimento, pelo canto do olho, percebi, em instantes temporais que se dilatavam, que o choque seria inevitável. Em transversal e hiper estado de alerta, o corpo reage com uma inusitada rapidez e as sinapses sucedem-se de uma forma alucinante. Recordo esses instantes, como longos e lentos momentos em que pude pesar diversas alternativas e decisões: travar e, ainda assim, saber de antemão que não seria suficiente… Crash! Menos mal, foi só chapa, gritava o meu lado optimista… Ai o carago, vociferava o meu lado realista (e tripeiro), enquanto constatava que a apólice do meu colega condutor se encontrava caducada… Coitado do senhor, vê-se pelo carro de um modelo que já não se fabrica, pela ausência de alguma dentição frontal e pelo horário madrugador de labuta ao fim-de-semana que não tem pais ricos, não ganhou a lotaria e o BES não lhe empresta 5 euros que sejam, gritava a minha costela das questões sociais de esquerda. Não tem seguro, vai de transportes públicos e não se arrisca a passar um vermelho e a prensar-me em chapa barata, vociferava a minha costela individualista e self-made-man de direita.

Não ando com tempo, nem espaço mental para resolver aporias, mas já me fui mentalizando que o subsídio de férias tem destino certo: vai para a garagem do meu mecânico e eu fico a beber daiquiris em praias longínquas e paradisíacas? Não, copos de água, pedidos com jeito e especial favor numa barraca das praias de Leça, com vista para a refinaria.
Até para o azar é preciso ter sorte ou dinheiro!
Foto: "Semáforo", de Padroense

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Acha-me!


"Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor

que te procuram."


Tríptico II, Herberto Helder


Foto: Camaaño Castro

terça-feira, 20 de maio de 2008

Cansa-me (outra vez...quem sabe)



Cansa-me o que se repete, mesmo quando não é igual. Cansa-me o movimento idêntico, a replicação cansada do gesto desacreditado. Cansa-me o precário equilíbrio oscilante, negociado sem rede. Cansam-me as falsas partidas e as advertências (sempre) tardias do juiz de linha, porque o empenho já se encontrava depositado em todo o mais ínfimo músculo em tensão. Hoje, não quero mais falsos começos. Hoje, não quero mais fins disfarçados de (re)inícios requentados, celebrados com a cerimónia da refeição em casa estranha. Amanhã, não sei… Mas, hoje é o desafio da permanência provisória, da perenidade temporária, do infinito a prazo que quero aprender.
Ainda assim, custa dizer adeus, quando o sorriso de um olá recente ainda jaz na boca.

Foto: A Escada do Desespero de Arlinda Mestre

Os feios que me perdoem...

... mas, beleza é fundamental e, ervilhicamente falando, esta blogger é despigmentadamente bonita... Ele lá sabe...
Eu sei que fico (como dizem os brasileiros) "sem jeito" perante cumprimentos e elogios. Ocorre-me um insuficiente, muito ruborizado e lírico, obrigada de menina...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O tempo do presente

Um presente transporta sempre consigo uma dedicatória acoplada. Com uma oferenda, estabelecemos uma ponte física entre nós e o Outro: há uma coisa, escolhida, tocada por nós que se desloca até ao toque do Outro, escolhido óbvio do nosso desejo, da nossa vontade, da nossa preferência. A intenção da dedicação está lá também, muda ou em letras capitalmente escritas. Tem de ser medida até à mais ínfima grama: não a queremos inócua e sem significado, mas também não a desejamos traidora, delatora total do delírio em que nos encontramos.

O meu presente foi recebido na sexta-feira e, nesse dia, o encontro deu-se sem marcação prévia, não por obra e graça do destino, mas porque os passos, nesta cidade, tendem a ser decalcadamente idênticos. Esqueçamos a explicação lógica e agarremo-nos à deslumbrante força da racionalidade do destino. Sem falar, sem combinar, estamos aqui, outra vez, no espaço onde a dança do corpo nos juntou. Dançamos novamente… “Tinha acabado de te enviar uma mensagem…” Afirmação sincronicamente confirmada pela vibração sentida no bolso da trás das minhas calças. “Mais uma vez, estou neste antro de perdição e só penso em ti. Só em Ti! Quem me dera estares aqui. Vem ter comigo! Beijos… dos nossos”. E eu, ali estava, antecipando as ordens desconhecidas daquela sms, ainda incrédula com aquela coincidência, mais do que provável…





Fim de festa. Dia aberto na cidade ainda a espreguiçar-se, ainda a esboçar movimentos tímidos e frios. Pequeno-almoço na confeitaria possível, junto ao ícone do burgo. Falamos da coincidência deste encontro. Falamos da dedicatória acoplada ao presente que te havia enviado… Os olhos, agora humedecidos, denunciam o emocionado agrado que ele te causou. A boca, ainda lenta e adormecida pelo álcool, adverte cautela, pronuncia-se sobre “o cuidado” que eu devo ter… O indizivelmente paternalista, “tem cuidado contigo”, costuma servir uma de duas funções: uma vez dito, iliba o emissor de eventuais responsabilidades sobre o que possa vir a acontecer, por outro lado, o cuidado feito voz, não escolhe destinatário, é uma advertência para quem o diz também (não me posso esquecer que preciso ter cuidado).

Seguem-se mais frases habitualmente usadas em enredos desta natureza: “não tenho nada para dar”; “não tenho expectativas”; “não me quero envolver”. Surge a vaga e insuficiente explicação da dor passada, como sustentáculo da postura que se procura consolidar no presente e no futuro. Como se a vida se amordaçasse com os frágeis açaimes que lhe destinamos…

Neste caminho, duas vias possíveis emergem com clareza. Vou ignorar, registar e assobiar para o lado, é a minha história e quem define o argumento sou eu. Escolho a outra e insisto. Eu também não sei o que tenho para dar. A última coisa que procurava e achava que iria encontrar neste momento seria a intenção de me envolver. Mas, eu tenho vontade de me deixar levar, de me deixar ir nesta história, cujo início anunciava precocemente um fim. E não tem sido assim, não é? Então, o que eu te pergunto é o que é que tencionas fazer quando, e se, o momento se dilatar para outros espaços: vais decepá-lo ou permitir que ele cresça, sem agenda e programa definido?

Há uns olhos que me fitam com incredulidade, há um abraço que me ampara o corpo que treme no declive dessa manhã fria. “Ainda por cima, és brilhante, és tão inteligente. Não podias ser uma burrinha qualquer?!”. Sorrio, afastando o embaraço com uma piada transparente: “Tu é que insistes em ignorar as minhas raízes capilarmente loiras”.

Olha para mim, a ser burra que nem um cepo e a dar-te a mão e a puxar-te para o interior do táxi, enquanto anuncio a minha morada. Olha para a torre dos Clérigos que nos observa lá do alto, enquanto se interroga: por que é as pessoas insistem em complicar o que é simples, o que é claro, por que é se refugiam em esconderijos frágeis e armaduras inúteis… A Torre a antecipar-se à minha espiral reflexiva e adivinhar a pena que sentiria por saber que este não é o momento para eu resgatar futuros, junto a quem insiste por decreto, em não descolar de passados e a permitir-se apenas mergulhar timidamente no cálido líquido do presente. A Torre a lamentar, antes de mim, que não me apeteça lançar-me nesse longo e potenciamente infrutífero empreendimento demonstrativo de que 1 e 1, também podem ser 3...

Foto: Paulo Pimenta