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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Retornar

E a Vida brinca mais uma vez ao "1, 2, 3, diga coincidência mais uma vez..."


Os meros sinais da tua tua presença já me fizeram tremer o corpo, já me secaram a boca, já me plantaram uma pedreira no estômago... Fui percebendo que o epicentro do tsunami físico que semevas em mim, aos poucos, se deslocava, afrouxando a nefasta devastação que me provocavas... Meses passaram sem a intempérie de te vislumbrar, até que na quinta-feira lá estavam os teus indicíos, lá estavas tu... Mas, em mim, não houve uma nuvem que se formasse, não se discerniu uma brisa, não se apagou o sol que agora brilha e me aquece. Sorri, depois, quando percebi de que é que se tratava... a memória do corpo dissipara-se, finalmente.


Quase jurava que tinhas avistado o bom tempo que em mim fazia ou que engenhosamente terias encontrado este espaço de confissões e, por isso, após meses de hirto silêncio frio, decidiste assolar-me com um contacto (por sms, como tu e os adolescentes tanto apreciam...). Mas, não, nada disso. É só a culpa, que tarda, mas não falha, é só o retorno de uma lembrança torta que transportas, é só a porta entreaberta que, por teimosia, não fechaste. Faz frio, não é? Que pena não te poder ajudar, mas essa corrente de ar já não me incomoda, já não estou do outro lado à tua espera...

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Memória dissipada

E depois, um dia, agora, o corpo deixa de ranger quando intui a tua presença. Já não és ladrão, malfeitor e foragido. Foste amnistiado da condenção do afecto, da raiva, da ternura e do medo que te prendiam.
Deixaste de ser procurado e depois, um dia, agora já não se oferecem recompensas a um sol que entregue a tua sombra. Desconheces, ignoras e és alheio a este processo, porque é só minha a celebração da liberdade que te encerra nas grades opacas da indiferença.

A dor já não é, já não está, nem sequer vagamente. Agora, a dor é só textura da memória seca e encarcaquilhada dos estilhaços do antes, de um dia...
Foto: "A paisagem que escapuliu " de Luís Andrade.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Intimidade



Na semana que passou, ao final do dia, perdi-me em busca de uma localidade remota algures na periferia do Porto. Conduzia um pouco à toa, achando que as placas de informação me elucidariam e que a hora de ponta não me atrapalharia. Quando percebi que me encontrava num ponto sem referência dei a busca por terminada e querendo regressar a terra conhecida, vi-me forçada a resgatar um caminho recentemente abandonado que percorria unicamente para encontrar os braços que desejava. Refazer esse caminho, conduziu-me à formulação de pensamentos tontos. Desfilavam no tapete da minha memória os impulsos que outrora me comandavam os passos naquele percurso, os diferentes trajes de desejo com que o corpo se vestia de latejo e palpitação… Aqueles pensamentos magnetizavam aquele local, impeliam-me para aquela casa, “só para confirmar se ela ainda lá estaria”. Avistar aquele carro, confirmando a continuação daquela presença, já descontínua em mim… Prosseguia em controverso colóquio comigo mesma: ir; não ir; vantagens; desvantagens… Até que tu provas, mais uma vez, que as coincidências existem. Tu provas, mais uma vez, que me adivinhas, mesmo sem saberes. Tu resgataste-me desse redemoinho lodacento da memória e atiras-me para um futuro certo e próximo, quente e aconchegante… Peixe grelhado e arroz de tomate cozinhado por ti, para mim?! É claro que quero jantar contigo, só quero jantar contigo…

Tenho resistido à tentação de escrever sobre ti. Tenho tentado evitar depositar as palavras que podem empilhar-se e formar um “nós”. Sim, é sobretudo isso. Parece-me que se não escrever, se não falar do assunto ele não se torna coisa, não assume uma verdadeira existência. E é, tão só, porque me assusta a ideia de perda. Aquela ideia de perda cujo horizonte traçaste com umas, simples, irrepetíveis (quem sabe, até, ocas), palavras. Aquela assustadora e injusta ideia de perder o que não se viveu. Mas, é justamente a viver, a agir, a fazer que temos criado um “nós”, quase sem reticências. Não tenho, nem desejo (salvo em alguns momentos de puro terror de naufrágio) contornar a acção, evitar os momentos, os nossos instantes em que essas palavras parecem um idioma estranho sem qualquer correspondência à realidade. Até agora, a única coisa que pedes é que seja a vontade a ditar a rotina dos nossos encontros: a minha e a tua. Tem sido assim e tem sido tão bom… E foi desse modo que o peixe ganhou cor e gosto, que os misteriosos grãos brancos se imiscuíram crescentemente com a água e o tomate, que o vinho se elegeu para molhar a conversa que entre nós já não cessa. E foi desse modo que esboçamos uma dança quando o Paul Desmond tocava Adeus, que sentamos em uníssono os corpos no sofá e que as mãos se tocaram como faíscas que tudo o resto incendeiam. E foi num rasto de fogo, de terra queimada onde muito mais promete germinar, que nos quedamos na tua cama, como se o meu corpo ali pertencesse e os teus braços tivessem sido concebidos para me embalar até adormecer. Amanheceríamos juntos para um dia comum, para a banalidade que nos preenche e caracteriza no compasso regular e previsível de todos os dias. Enganar o despertador, fintando as horas de levantar, alternar banhos, tomar o pequeno-almoço, fitar-te no elevador e desejar-te: um bom dia… como se todos os dias tivessem sido assim, mas desconhecendo (porque nunca se conhece) como serão os próximos. Quero-te assim também, nessa normalidade idêntica, sem nada de extraordinário, nesse desfiar dos dias que se contam iguais e cujas diferenças apenas se vislumbram através de uma inquietante e rara proximidade, através da frágil teia de intimidade que sem molde e sem planos urdimos sem querer.

Foto: "A inversão do tempo" de Ana Franco.

sábado, 21 de junho de 2008

Muita parra...

Semana intensa, a que se avizinha, com, quase certa, ausência internética (ela já tem andado intermitente, mas isso são contas de outro rosário...):
- Fim de semana: ver jogos do euro. Tenho de arranjar uma equipa adoptiva e não me consigo decidir. Pensei que seria a Croácia, mas os turcos trocaram-me as voltas (está decidido, serei turca no duelo meta-futebolístico Alemanha-Turquia). Hoje, serei holandesa e amanhã espanhola (que remédio... italiana é que jamais!). É muito difícil esta transmutação nacionalista...
- Na segunda-feira, serei tripeira, sem alho-porro, nem martelo, mas na rua até de manhã a festejar um santo, de sua graça, João.
- Na terça-feira, serei tripeira ressacada, sem alho-porro, com a cabeça a martelar, na cama até ser noite a amaldiçoar um santo, ou dois, ou três...
- Na quarta-feira e até sábado, serei alfacinha, em chato congresso profissional...

(E, contra todas as expectativas, pelo menos as minhas, este é o post número 100... shuif, shuif)

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Longe da vista... perto de um click

Há alturas em que se torna muito evidente o motivo pelo qual não partilho, mesmo com os que me são mais próximos, a existência e a morada deste espaço. Para mim, é importante que existam duas, três pessoas, não mais, que saibam detalhada e actualizadamente o que se passa na minha vida. Que conheçam os factos, mesmo os mais insignificantes, que compreendam o que eles representam para mim, como me tocam, como me moldam o humor, o olhar e o sorriso. Ainda assim, há coisas que não se partilham, mesmo com quem nos conhece em cada íntimo minuto da vida. Podem ser situações muito diferentes, em geral, motivo de embaraço, vergonha ou pudor. Mas, essas duas, três pessoas, não mais, não me julgariam, não me avaliariam a partir do que é risível, maldoso, infantil e tosco em mim. Acumulariam apenas esse facto onde juntam todos os outros, num saco que já não comunica com o incondicional afecto, com a Amizade.

Quando a convivência, movida pelo amor, pela paixão, pelo devaneio passageiro… termina, em regra, estabelece-se um novo espaço, uma distância operativa para o fim que se decretou. Não se busca a co-presença (ou, então procura-se “acidentalmente”, só para ver mais uma vez…). Deixa de se contribuir massivamente para o enriquecimento das redes móveis, à custa de sms de “só para enviar um beijo…”, de telefonemas sem razão, ou melhor, com a única que vale a pena, “era só para ouvir a tua voz…”. É assim que deve ser. Mas, sabemos que não o é, quando a cidade ou um confinado quarto de subúrbio gritam uma presença que já não deve existir. Sabemos que assim não é, quando nos aventuramos num espaço que sabemos ser habiual dessa ausência e fingimos surpresa quando ela se materializa no corpo que já lá não está. Sabemos que assim não é, quando o ritmo a que o sangue se passeia no corpo aumenta inexplicavelmente, apenas porque “aquele carro vermelho é do…”, até a vista nos informar da combinação atribuída pela DGV ao veículo e a dança vermelha no interior do corpo regressar ao compasso lento (e um pouco mais triste) que lhe é habitual.

Nem sempre a partida se anuncia no território. Por vezes, já apartados, apertamo-nos em rotinas que inevitavelmente se cruzam, a sala de aula? o local de trabalho? … Onde é que se arruma o olhar, nesta circunstância? Onde é que se constroi o edifício do esquecimento de um corpo que diariamente se passeia na retina? Como é que se interrompe a torrente de pensamentos “por que é está a rir? por que é que está tão sério? or que é não olha? por que é olha?”

Houve alturas em que pensava esta ténue ou férrea inscrição do Outro no espaço se solucionava mudando de cidade, mudando de país, cortando de vez com a ligação ao território que alimentava tudo o resto numa ininterrupta vertigem de articulação. Mas, como é que é possível fazer isso hoje? Mesmo quando (por sorte) já não se comunga de um local onde os corpos esbarram, mesmo quando já se eliminaram os números de telefone, da memória do mesmo (embora ainda subsistam numa outra...), quando no mero gesto de um click ordinário, bisbilhoteiro e voyerista acedemos a uma despudorada página internética onde aquela vida ausente jaz escarrapachada?
Foto: "Off mode", Rattus.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Contra(o)tempo

Este blog teve um irmão que não sobreviveu aos dois primeiros posts. Quer dizer, provavelmente, ainda tem, mas eu abandonei-o, porque não tinha como o sustentar. Deixei-o, esqueci-me do seu nome e do caminho para lá chegar. Sei que, já na altura (aí, quê, há uns três anos ou mais), o nome já tinha alguma coisa a ver com tempos, porque eu e o dito cujo temos uma relação antagonicamente umbilical.

A este, acho que lhe quis chamar tempos que correm, mas descobri que esse nome já existia e dava nome ao blog de Miguel Vale de Almeida, antropólogo, que aborda de uma forma notável os mais diversos temas da actualidade política e social. Pensei, “pois, tempos que correm é uma designação bastante acertada para falar disso, mas não é disso que quero falar. Aliás, eu gostava era de ter tempo para andar devidamente informada, ter tempo para reflectir sobre o que se passa à minha volta, ter tempo para produzir uma opinião que originasse dois parágrafos com pés e cabeça".

Recentemente, num e-mail muito amável e deveras lisonjeiro, alguém tropeçava num lapsus linguae soberbo, que originou um imediato segundo e-mail explicitando a devida desculpa, porque o assunto da primeira missiva falava de tempos que fodem! Ora, pensei eu, “isso é que era um nome fantástico, como é que não me lembrei disso na altura do baptismo?!?”. Retorqui imediatamente, “nã, estes tempos não copulam tanto como gostariam e um blog monotemático exige uma especialização que ainda (sublinhe-se o esperançoso e optimista ainda) não tenho. Numa outra acepção da dita classificação dos tempos, está bem que há uns que são maus, chatos, isto é, fodidos, mas também há outros bons e assim ficaria desajustado.

Lá me conformei com os tempos que fogem, porque, para mim, a expressão não poderia ser mais adequada. O meu problema com o tempo remonta até onde a minha memória me alcança. Até aos seis anos, ficava em casa dos meus avós que habitam a uma curta distância dos meus pais. Ignoro as manhãs em que a minha mãe se degladiava com o relógio e uma criança pequena indiferente a esse ritmo. Sei que, em casa dos meus avós, o tempo se moldava como plasticina entre as minhas mãos. Havia ritmos mais ou menos definidos que coincidiam quase exclusivamente com as refeições. Ora, como já na altura comer era um puro acto de deleite e prazer, as horas das refeições não constituíam um problema. Eu domava o relógio com um pequeno chicote que ainda ignorava o tamanho da fera. Até ao dia em a escola desferiu um primeiro e rude golpe no meu edifício de vontade (julgado) intemporal. A escola impunha um horário que tinha de se cumprir, gritava uma ordem às tarefas e um ritmo que não admitia desvios: acordar, tomar banho, lavar dentes, vestir, pentear (eterno suplício materno de riças e lágrimas para desenhar duas grossas tranças), tomar o pequeno-almoço, pegar na mochila, caminhar, chegar, sentar, abrir livros, ouvir, aprender no período estipulado, fazer os exercícios rápida e certeiramente, ouvir a campainha, esticar os 30 minutos do recreio… Começou aí a enrijecer a plasticina do tempo, até hoje ser mármore fria que constantemente se me escapa dos dedos e se estilhaça no chão.

Olho à minha volta, com o autismo infantil que, pelo menos agora, me caracteriza e não vejo ninguém com idêntica dificuldade. É sempre, mas sempre num esforço de Sisífo que procuro cumprir com um tempo que desde há muito não agarro com jeito. É sempre, mas sempre, com a fatalidade de um castigo divino, que o mármore se me escapa dos dedos e rola pela escarpa abaixo.

Este paleio todo para dizer que ainda estou a braços com uma tese que disse acabar em Dezembro e, depois, em Abril, e, depois, em Maio... Isto para dizer que, desde Dezembro e, depois, Abril, e, depois, Maio, que finalmente penso que vou telefonar às pessoas de quem gosto e que há tanto não ouço, que vou finalmente cumprir com as dezenas de “sim, quando eu acabar a tese, a ver se tomamos um cafezinho e pomos a conversa em dia”, que vou finalmente passar fins de semana a cozinhar pequenos banquetes caseiros para receber os meus amigos, que vou finalmente ler sem culpa os outros livros de que gosto e que nem conhecem a palavra ciência, que vou finalmente avançar para além das letras gordas do diário jornal que ainda insisto em comprar. Que vou finalmente alcançar o tempo e agarrá-lo com as duas mãos e voltar a moldá-lo como barro na forma da minha vontade.

Hummm, é por estas e por outras concepções idealistas que ele me escapa…

Fotos: daqui

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O tempo do presente

Um presente transporta sempre consigo uma dedicatória acoplada. Com uma oferenda, estabelecemos uma ponte física entre nós e o Outro: há uma coisa, escolhida, tocada por nós que se desloca até ao toque do Outro, escolhido óbvio do nosso desejo, da nossa vontade, da nossa preferência. A intenção da dedicação está lá também, muda ou em letras capitalmente escritas. Tem de ser medida até à mais ínfima grama: não a queremos inócua e sem significado, mas também não a desejamos traidora, delatora total do delírio em que nos encontramos.

O meu presente foi recebido na sexta-feira e, nesse dia, o encontro deu-se sem marcação prévia, não por obra e graça do destino, mas porque os passos, nesta cidade, tendem a ser decalcadamente idênticos. Esqueçamos a explicação lógica e agarremo-nos à deslumbrante força da racionalidade do destino. Sem falar, sem combinar, estamos aqui, outra vez, no espaço onde a dança do corpo nos juntou. Dançamos novamente… “Tinha acabado de te enviar uma mensagem…” Afirmação sincronicamente confirmada pela vibração sentida no bolso da trás das minhas calças. “Mais uma vez, estou neste antro de perdição e só penso em ti. Só em Ti! Quem me dera estares aqui. Vem ter comigo! Beijos… dos nossos”. E eu, ali estava, antecipando as ordens desconhecidas daquela sms, ainda incrédula com aquela coincidência, mais do que provável…





Fim de festa. Dia aberto na cidade ainda a espreguiçar-se, ainda a esboçar movimentos tímidos e frios. Pequeno-almoço na confeitaria possível, junto ao ícone do burgo. Falamos da coincidência deste encontro. Falamos da dedicatória acoplada ao presente que te havia enviado… Os olhos, agora humedecidos, denunciam o emocionado agrado que ele te causou. A boca, ainda lenta e adormecida pelo álcool, adverte cautela, pronuncia-se sobre “o cuidado” que eu devo ter… O indizivelmente paternalista, “tem cuidado contigo”, costuma servir uma de duas funções: uma vez dito, iliba o emissor de eventuais responsabilidades sobre o que possa vir a acontecer, por outro lado, o cuidado feito voz, não escolhe destinatário, é uma advertência para quem o diz também (não me posso esquecer que preciso ter cuidado).

Seguem-se mais frases habitualmente usadas em enredos desta natureza: “não tenho nada para dar”; “não tenho expectativas”; “não me quero envolver”. Surge a vaga e insuficiente explicação da dor passada, como sustentáculo da postura que se procura consolidar no presente e no futuro. Como se a vida se amordaçasse com os frágeis açaimes que lhe destinamos…

Neste caminho, duas vias possíveis emergem com clareza. Vou ignorar, registar e assobiar para o lado, é a minha história e quem define o argumento sou eu. Escolho a outra e insisto. Eu também não sei o que tenho para dar. A última coisa que procurava e achava que iria encontrar neste momento seria a intenção de me envolver. Mas, eu tenho vontade de me deixar levar, de me deixar ir nesta história, cujo início anunciava precocemente um fim. E não tem sido assim, não é? Então, o que eu te pergunto é o que é que tencionas fazer quando, e se, o momento se dilatar para outros espaços: vais decepá-lo ou permitir que ele cresça, sem agenda e programa definido?

Há uns olhos que me fitam com incredulidade, há um abraço que me ampara o corpo que treme no declive dessa manhã fria. “Ainda por cima, és brilhante, és tão inteligente. Não podias ser uma burrinha qualquer?!”. Sorrio, afastando o embaraço com uma piada transparente: “Tu é que insistes em ignorar as minhas raízes capilarmente loiras”.

Olha para mim, a ser burra que nem um cepo e a dar-te a mão e a puxar-te para o interior do táxi, enquanto anuncio a minha morada. Olha para a torre dos Clérigos que nos observa lá do alto, enquanto se interroga: por que é as pessoas insistem em complicar o que é simples, o que é claro, por que é se refugiam em esconderijos frágeis e armaduras inúteis… A Torre a antecipar-se à minha espiral reflexiva e adivinhar a pena que sentiria por saber que este não é o momento para eu resgatar futuros, junto a quem insiste por decreto, em não descolar de passados e a permitir-se apenas mergulhar timidamente no cálido líquido do presente. A Torre a lamentar, antes de mim, que não me apeteça lançar-me nesse longo e potenciamente infrutífero empreendimento demonstrativo de que 1 e 1, também podem ser 3...

Foto: Paulo Pimenta

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Tempo de pausa, sem ócio

Ai as férias! Já deviam ter começado na quinta-feira. Contudo, eu, que juro a pés juntos ter o espírito do pior funcionalismo público cravado em mim, com a força e a convicção de um casaquinho de malha pelas costas e um porta-moedas debaixo do braço, sucumbi à culpa de um projecto não concluído (por responsabilidades terceiras) e hoje ainda vim dar o ar da minha graça à chafarica. Mas, agora, sim: as férias. Não vou dizer “finalmente”, porque não são essas vacaciones (de sol, praia e papo pó ar). São “aquelas” em que, durante duas semanas, me entranharei num fato de treino de algodão, descobrindo a sopeira que há em mim, e me fecharei para o mundo para acabar a merda da tese.
Até lá, estes tempos ficam aferrolhados e sem hipótese de fuga.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A adoração dos meninos

Os estudos (sim, esses todos que comprovam o que vou dizer) demonstram que o sono é muito vantajoso. Eu já suspeitava (sim, porque alguns estudos tendem a comprovar tautologicamente o que já se sabia) e, como tal, respeito-o e ele a mim. É uma relação muito antiga que, com aviso prévio, se consuma invariavelmente na cama. Sem grandes preliminares (é chegar e dormir). Sem grandes inovações kama-sumátricas (barriga para baixo, sempre). Eu e ele somos criaturas de hábitos rígidos (sempre sem almofada). Não temos hora marcada, nem nos aborrecemos com isso. Ele confia em mim e sabe que eu regresso sempre. Eu não temo a sua ausência e confio que ele chega sempre sem demora.

Recentemente, há um terceiro elemento que teima em se intrometer. É o pré-sono e tende a acontecer no sofá. A carne é fraca e, às vezes, sucumbo à tentação de lá ficar. O dia seguinte é acompanhado de arrependimento e de uma pesada culpa, que se faz sentir com particular acutilância na zona lombar. Em acto de contrição intermitente, repito: nunca mais, não volta a acontecer. Mas volta, porque o sofá é matreiro, sedutor e fácil.

Ora, quando durmo no sofá, os braços de Morfeu deixam as suas marcas na minha memória. Imagino que devo sonhar todos os dias, simplesmente não me lembro, excepto quando desfaleço no sofá…


Eu, assim, do nada estava grávida (bom, não era bem do nada, era mais de um recente casual-nada). Eu decidia ter a criança. O meu pai ficava muito contente com a sua filha mãe solteira (!!!) e com a sua condição de avô. Por seu turno, a minha avó fazia-me festas na cabeça e murmurava, “olha filha, tudo se cria, tudo se cria”. Num processo muito asséptico (menos mal, porque um sonho neo-realista eu não suportaria!), eu lá tinha a criança (em pé?!) e ficava muito admirada porque não tinha doído nada. Eu amamentava-a e fica novamente admirada porque não tinha doído nada. Eu olhava embevecida o meu/minha mini-me que não chorava e só sorria…

Eu, felizmente, acordei… alagada em suor e estupefacção.

Bem sei que, de há uns tempos a esta parte, alguns dos meus amigos e conhecidos decidiram apostar nesse empreendimento de longo prazo que consiste em procriar. Mas, à minha inicial alegria face à comunicação da notícia, têm-se contraposto sucessivos desgostos, porque vejo esses amigos e conhecidos a esvaírem-se no ralo da paternidade. O mundo é colocado entre parêntesis e de um só fôlego engolem o papel de mãe/pai que agora desempenham.

A criança ainda não nasceu e já a conversa é totalitariamente absorvida pela projecção do dia em que tal venha a acontecer. Onde é que vai ser? Na clínica, na maternidade, no hospital, em casa à moda antiga? Como é que vai ser? Com epidural, sem epidural, cesariana, natural à moda antiga? Depois, nasce e, então, o deslumbramento é tanto que o resto do mundo é açambarcado na narrativa que repetem, à laia de pioneiros que pisam Terra Nova (e pisam mesmo, mas antes já muita gente lá esteve, né?). Nesta odisseia ganham foros de assunto de Estado problemas como a cor do cocozinho e da ranhoca, a idade certa para lhe darem um irmãozinho (aqui a doutrina divide-se abissalmente; uns defendem o logo a seguir, outros advogam um período de pousio), a prospecção de infantários e colégios, lembrando-se da casa dos tios em Coimbra (no caso de ele/ela ficar lá estudar, quando entrar para a Universidade).
Com os putos ainda de tenra idade, mas já mais crescidos, os pais tentam retomar uma suposta vida social e arriscam-se com a criatura em espaços públicos e semi-públicos. Aqui, já testemunhei comportamentos de crianças e, sobretudo, temeroso, cobarde e irresponsável, anuimento de pais anónimos que me arrepiam dos pés à cabeça. Custa-me quando isso é protagonizado por quem conheço e que igualmente criticava tais posturas. Desde logo, “é muito difícil sair de casa com eles”, é o carrinho, é o coque, é as fraldas, é o leite, é o robocope, é o playmobil, é o Noody, mais o c******. Depois, uma vez à mesa, é ponto assente que a criança tem de se distrair, ou melhor a criança tem de ser distraída. Mobiliza-se, assim, a corte de bobos… quer dizer, adultos nessa adulação por turnos ao rei… quer dizer ao puto. Eu não peço que uma criança se comporte como um adulto, mas exijo que um adulto (sobretudo, se meu amigo) não se comporte como uma criança. Ficam muito chocados com as críticas, alguns exclamam: “ah! Não gostas de crianças?”. “Não, não gosto de crianças, tal como não gosto de adolescentes e não gosto de velhos. Gosto de algumas crianças. Dificilmente, de alguns adolescentes. E, cada vez mais, de alguns velhos!”

Puff, much better! Tive algum receio da bruma delicodoce (sim, admito) em que o sonho me envolveu, por isso precisava de destilar um contraponto, em modo concentrado, de bílis e fel.
Foto: "Para esperar sentado" de Nuno Rodrigues.
Pintura: "La adoracion de los magos" de Pieter Coecke van Aelst (acho eu...)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Morde(r)-me

O engodo dos sentidos continua… Os raios de sol agitam-se, fazendo soar em uníssono os sinos da luz e da claridade que chocalham com as campainhas da energia e do calor. Irrompem fortes, inesperados e intensos, protagonizando o solo do momento. O corpo, treinado milenarmente para lhes responder, apieda-se, bamboleia-se em contracções, arrepios e espasmos intuídos, accionando um doce e intermitente estado de alerta. Saliva, o corpo saliva, tal como era esperado, tal como lhe compete.
Este verão, quando chega, é para todos. Distribui-se com a razão contabilística de um deve e haver não saldado no rude Inverno que passa. Incide com (in)justiça nos endividados, equilibrando a balança, com depósitos de olhares que se cruzam e se perdem... perplexos, maravilhados com os centímetros epidérmicos que timidamente despontam aqui, ali, acolá, mais adiante, além...

É a alegria e a comoção que sentimos perante a novidade da fruta da época. Os primeiros morangos, as primeiras cerejas orgulhosa e provocadoramente expostas no centro dos caixotes de madeira da mercearia do bairro. É a ansiedade nervosa da primeira trinca, a curiosidade infantil e sôfrega de comprovar se vão ser doces, se concentrarão as propriedades intransmissíveis que brincam e provocam o gosto, se escorregarão em suco, pela esquina dos lábios até ao queixo, convidando um indicador a percorrer esse trilho e a devolvê-lo à boca onde pertence.
Nada substitui o gáudio com que se recebem os primeiros morangos. Raramente são os melhores. Objectivamente, costumam ser desenxabidos, baços e rijos, mas marcam o tempo em que a prova começa, inaugurando o desfile de todos os que se seguirão… até se tornarem rotina, presença habitual, conduto do dia-a-dia. São assim os primeiros ombros que se vislumbram, transbordando de fragilidade, palidez e pudor, mas sabendo-se alvo da comoção alheia que os mira, que os finca e que de, muito, bom grado os sorveria languidamente.
São apenas os primeiros…os melhores ainda estão para vir.

Foto: "Tentação" de Amanda Com

segunda-feira, 31 de março de 2008

Seguindo em frente

(em resposta - embora não responda - ao comentário da Teresia)

Através das palavras surge a possibilidade de capturar a realidade e de a enjaular na nossa grelha perceptiva. Não deixa de ser ilusório. A realidade é uma fera brava, um animal selvagem que não admite freios, nem amarras. Domestica-se durante um tempo, mas, quase sempre, quando menos esperamos (ou mesmo quando já só aguardamos e desejamos que tal aconteça), ela, qual leão, mostra a sua raça, quebrando as sólidas barreiras em que a havíamos encaixado.

O post anterior surgiu de um acontecimento concreto, a partir do qual ousei tecer algumas generalizações. Do mesmo modo que existem, pelo menos dois sentidos, virar ou seguir frente, também o protagonismo do movimento é, pelo menos, duplamente partilhado Contudo, tendo aflorado a questão, não me cheguei a colocar do outro lado. Se calhar, porque tenho a ideia de que lá não estive muitas vezes… Admiro a persistência, a determinação e a tenacidade com que algumas pessoas perseguem, um ideal, um objectivo, o ser amado... Curiosamente, não é assim que me vejo…

Na deambulação pelas obscuras vielas em que se estabelecem as relações humanas, trocam-se sinais. Socorremo-nos deles para tentar demonstrar um interesse, ora vago, ora ligeiro, ora intenso, ora arrebatador… (depende do ponto em que se encontra a relação que se cozinha). Simultaneamente, procuramos decifrar os sinais que o outro nos envia. As operações são concomitantes, concorrentes, convergentes, antagónicas, simbióticas, mas sempre delicadas, complexas e, sobretudo, incertas. Anos a fio a tentar falar em comum e não há acordo ortográfico que valha à miríade de dialectos que por aqui pulula. Nesta caótica torre de Babel, para mim, a possível e provisória resolução passa por criar uma verdade própria que se alicerça na força das declarações produzidas e no capital de confiança que lhes deposito. Então, estas declarações têm um valor fiduciário. Por si só, elas nada valem, apenas adquirem valor, porque a minha fé sabe que elas se trocam por um capital de afecto, desejo, amor, etc. Naturalmente, o mercado é sujeito a enormes flutuações e este valor oscila também em função de inúmeros acontecimentos. Declara-se o crash, a falência e a crise quando, procurando trocar os títulos pelo seu valor facial, percebemos que não passam disso, declarações nominais, sem real liquidez e valor de troca.

Mais uma vez, assim dito, parece fácil… Contudo, no jogo dos sinais tudo se complexifica na regra dos porquês: "ao mesmo tempo que se interroga obcecadamente por que motivo não é amado, o sujeito apaixonado vive na convicção de que, na verdade, o objecto amado o ama mas não o diz” (R. Barthes). Neste jogo, ridicularizamo-nos com muita facilidade. Sou a prova viva disso…

Por alturas do Dia dos Namorados, tendo-se já finado o meu, embora eu ainda não o houvesse decretado no Diário da República do coração e habitasse num vazio legal que teimava em não regulamentar, acontecia o seguinte: a outra parte emitia sinais. A pessoa em causa, apresentava-se no Messenger, acompanhada de legendas que eu, porque ainda amava, me julgava serem dirigidas. Andei a ruminar naquelas legendas (eu, avisei que era ridículo) durante uma semana e o corolário do ruminanço ocorreu no dia 14 de Fevereiro. Saindo de casa de manhã, pensando “hoje é um belo dia para a emissão de mais um sinal que será, sem dúvida inequívoco”, volvidos alguns metros, aproximo-me de uma rotunda onde se edifica um viaduto. Aí, um lençol branco prendia a minha atenção, bem como a de todos os automobilistas. E como uma profecia que se cumpre, à força de tanto a desejarmos, lia-se uma frase que, porque eu queria, me julguei ser dirigida. A mensagem aparecia assinada, mas quis o vento (e o destino, pensei) que o lençol se dobrasse estrategicamente após a primeira inicial, ocultando as restantes letras. O vento balançava aquela frase naquele viaduto, tal como a minha vontade a fazia oscilar em mim, todo dia…aquela inicial: C.
Era, no mínimo contraditório (para não apelidar de insano), eu “julgava sofrer por não ser amada e no entanto sofria, porque julgava sê-lo” (R. Barthes). Eu desejava ler naqueles proto-sinais um “fica... não vás... amo-te”. Felizmente (ou não) deixei-me estar, convicta de que a comunicação deveria escorrer por outros canais que inequivocamente me fossem dirigidos. Como tal não acontecia, enchi-me de coragem (ou simplesmente perdi o medo de ser ridícula) e, no dia seguinte à noite, estacionei na rotunda à espera que o vento me acompanhasse naquele exercício de desocultação onde, amargamente, um Custódio qualquer se revelou apaixonado…

Conhecendo-me um pouco, sei que um “ele ama-me” vagamente intuído em cantos dispersos do quotidiano, onde se catam olhares, gestos e palavras, não me basta. Sei que, a partir desse ponto, mergulharei na espiral da quantidade: "porquê só um pouco, como é que só me ama um pouco? Eu disse gosto muito de ti e ele diz eu só gosto de ti”… Seguindo-se a vertigem nominalista, “se ama, por que é que não o diz de uma vez por todas?”

Neste processo, o estado de espírito que em mim se instala assemelha-se ao acto de acampar. Acho graça ao terreno irregular da ambiguidade, onde tudo é periclitante e a pedra onde as costas insistem em assentar não nos permite ter uma noite de sono tranquilo e retemperador. Mas só aprecio (e não muito, devo acrescentar) durante um período muito limitado de tempo. A partir de então, quero mesmo é a caminha do hotel, com lençóis, água quente, sabonetinhos e tv por cabo. Mas isso, sou eu, que já percebi que não me sinto feliz numa tenda de campismo. Claro que perco, segundo os entendidos, os prazeres da natureza, da mobilidade, de ser económico, etc. No quarto de hotel onde agora me encontro instalada, estou sozinha. O single sai comparativamente muito mais caro do que o duplo. Provavelmente, encontraria, com alguma facilidade, tendas, iglos e roulottes para partilhar. Mas, por preguiça, comodismo, hedonismo (é só escolher), agora, acho que prefiro assim.

Optar, escolher, implica sempre perder alguma coisa. Sabendo o que se perde, não há que ter medo, nem pena de o fazer. Se é campismo selvagem que queremos fazer, pois, então, vamos lá. Mas vamos e estamos, enquanto quisermos lá estar, enquanto acharmos que ali há algo por que vale a pena dormir mal e andar sujo. Quando se lá está, mas a sonhar com o Ritz, então mais vale pegar na mochila e procurar algum conforto na residencial ou pensão familiar mais próxima.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Vira ou segue em frente

Já fui deixada pelo caminho algumas vezes. Naturalmente, também já fui abandonando algumas criaturas na berma da estrada. No apertado e desconfortável veículo de comunicação que, das primeiras vezes, se habita e se procura partilhar, nem sempre se chega a bom porto. Refiro-me aos contactos iniciais, aos preâmbulos da imagem que construímos do outro, onde tudo se cata, tudo se pesa e se avalia. Com a experiência de algumas viagens e, sobretudo, de promessas de jornadas que não o chegam a ser, comprime-se o tempo dedicado à primeira avaliação do suposto companheiro de navegação. Não sei se é a capacidade de medir o outro que se aprimora ou se é paciência que se esboroa aos poucos. A verdade, é que percebo (ou acho que percebo) com cada vez mais facilidade, após alguns lampejos de comunicação, se há possibilidade de peregrinar em conjunto, ou não.

Houve alturas, em que, querendo prosseguir viagem, fui percebendo que do outro lado a vontade não era idêntica. Provavelmente (muito provavelmente), já fui a gaja chata que não se enxerga e não descola. Contudo, dentro das minhas limitações interpretativas, sempre que descortinei que a querença (e a crença, também) do outro não coincidia, naquele ponto, de estar ali, comigo e prosseguir. Então, parti ou escancarei a porta para que, quem assim o desejasse, partisse. Quem já viajou guarnecido de companhia, sabe que não é possível ir muito longe com quem não comunga de uma idêntica disposição de descoberta. Por isso, sozinhos apenas estamos se assim o decidirmos e mal acompanhados também.

Não raras vezes, essa partida é acompanhada de uma certa depuração dos sinais do ex-viajante do veículo. Em tempos de comunicação mediada telefonicamente, e concluída a impossibilidade de estabelecer mediação, portanto esvaído o significado, apaga-se também o significante da lista. Este processo, para mim, é muito pessoal, muito íntimo, é o círculo fechado e autocrático, onde, senhora de um incomensurável poder, decido (ou, pelo menos, penso que decido) quem entra e sai da minha vida. Nunca me ocorreu panfletar a decisão, submetê-la ao escrutínio de terceiros e muito menos dos visados.

Ora, o inverso já me aconteceu algumas vezes. Desta última vez, detive-me a pensar um pouco mais no assunto. Tínhamos falado algumas vezes no Messenger, não muitas, porque não sou grande apreciadora do instrumento. O meio faz a comunicação e a minha onda é mais da co-presença (que é como quem diz fronha-to-fronha), portanto, saímos uma vez, para tomar o café da praxe e, enfim, conhecermo-nos. A introdução bastou-me para compreender que não queria ler mais capítulos. Precipitado? Talvez, mas ao contrário de um livro, que eu decido não ler, uma pessoa, no caso ele, tem sempre margem de acção para me convencer do contrário e conduzir-me a acreditar que ali, está uma história que, por vários motivos, vale a pena ser lida. Neste caso, não foi isso que aconteceu. Eu não quis ler e, com excepção de algumas sms de fazer sala, ninguém me convidou a deixar de ser analfabeta.

Perante isto, foi com algum espanto que o meu telemóvel me informou, com inesperada mágoa, que: “Tendo em conta que não existe reciprocidade… vou apagar o teu contacto. Boa continuação e um bjo”
“Ehhh, atão, tá”, pensei eu. Ainda por cima, sempre embirrei com a expressão “continuação”, nunca percebi, continuação de quê? O que só me levou a confirmar a decisão que já se havia cristalizado. Bom, mas se comunicação de apagar o contacto me surpreende, a sua não concretização já me exaspera.

Hoje, tinha um e-mail que se arrastava nos porquês que eu não havia fornecido para justificar a minha ausência (!!!), “não era por nada, era só por curiosidade e tal”. Mais, acrescentava que caso eu não respondesse, se veria forçado a diminuir a sua consideração (!!!) por mim. Lá respondi, tal como lhe expliquei, não movida pela redução da minha consideração no seu considerómetro (que é coisa que evidentemente não me interessa), mas porque as questões, quando colocadas, merecem sempre uma resposta, sempre. E disse aquilo que, para mim (e se calhar, para mais alguém), é complicado por em palavras… não me senti minimamente impelida, motivada em pensar uma viagem contigo, em conhecer-te.
Fiquei a conjecturar sobre a situação… É evidente que a criatura simpatizou (ou lá o que é) comigo. É evidente que pensou que comigo se teria passado o mesmo e esperou, desejando que eu o contactasse, que eu resgatasse e o conduzisse pelos corredores do que o encantou em mim. E a ausência de reciprocidade a que ele se reporta, tece-se nesse reduto imaginário, nessa projecção da nossa vontade no outro. Eu falhei, porque não lhe devolvi essa imagem. Ele falhou, porque não percebeu que não ameaçamos sair do jogo, para ganharmos a simpatia da equipa e termos o capitão a pegar em nós pelo braço, “oh, não vás, fica mais um bocadinho”. Não se anuncia uma partida, acalentando o desejo contrário. Ou resolutos e (mais ou menos) dignos vamos embora, sem olhar para trás. Ou ficamos, porque enquanto houver bola em campo e até o árbitro apitar, o jogo continua...
Foto: "Ou vira ou segue em frente" de Vieirinha

segunda-feira, 17 de março de 2008

Viagens na minha terra: entre a cesta e a samsonite

Desde que tenho memória que os locais de viagem me fascinam: aeroportos, gares de comboio, etc. Deslumbra-me a ideia de um território que se define como passageiro, transitório e efémero no (des)encontro que promove. Marc Augé, fala de não-lugares para designar os espaços de passagem, a terra de ninguém da identidade, onde nos une e nos isola a condição de viajante.

A minha memória das viagens de comboio remonta aos tempos de infância. As férias (na altura, mesmo, grandes) previam um mês passado na aldeia dos meus avós, em Trás-os-Montes. A viagem era antecipadamente planeada e os dias de partida e de chegada estruturalmente desenhados em torno do autoritário horário do comboio, avivados intermitentemente pela minha avó: “ele não espera por nós e se o perdemos, ficamos em terra” (expressão curiosa a utilizar para um transporte sem mar à vista). O receio de “o perder” fazia sentido, porque a frequência de comboios não abundava (situação que hoje ainda se mantém). Mas, mais grave, não cumprir com esse horário significava hipotecar o precário equilíbrio que se havia planeado com o horário da carreira que era necessário apanhar em seguida. A carreira era o autocarro velho, que apenas por protocolo tácito com a morfologia escarpada do percurso acedia em não se despenhar nos socalcos vinícolas, conduzindo-nos ao longínquo destino na montanha. Dessas viagens, retive uma imagem construída e reconstruída dos viajantes: mulheres com buço, vestidas de negro e lenços na cabeça, acompanhadas de invariáveis cestas de onde espreitavam hortaliças e de onde se desprendiam odores animais. Pesava na cesta e nesse percurso a ignorância e o analfabetismo com que fitavam o encriptado painel (mais ou menos) electrónico onde se a anunciavam as linhas, os destinos e os horários de partida, “oh, menina, pó Porto, que comboio é?", acumulavam-se nas filas da bilheteira com a confusão de quem não se explica.
As férias na aldeia deixaram de acontecer há muitos anos. As viagens de comboio tornaram-se mais frequentes e tomaram outros destinos. Nos entretantos, muita coisa mudou na fachada e no funcionamento das gares e estações de embarque. Ainda assim, a imagem das cestas não se dissipou. De vez em quando, nos contextos mais inesperados, ela dá sinais de si...
Na gare do Oriente, sexta-feira ao final do dia, tal como muita gente, encetava a viagem de regresso ao Porto. Na plataforma, juntavam-se pessoas cujos trajes e semblantes se assemelhavam, denunciando a pertença a profissões mais ou menos qualificadas e técnicas – pessoas em trânsito profissional. Foi entre "dôtores e enginheiros", PDA’s e telemóveis de última geração, que uma voz feminina, agradável e, curiosamente, perceptível (demonstrando a extinção da tradicional e nasalada advertência “o comboio procedente de Lisboa Santa Apolónia, com destino a Porto Campanhã, vai dar entrada na linha número 1, efectua paragem em, blá, blá, blá", da qual apenas era possível decifrar pequenas sílabas que se alinhavam mentalmente num puzzle em que faltavam peças) explicava agora pedagogicamente que o comboio das 19 horas teria duas composições: na linha 1, entrariam as carruagens 1 a 6 e, na linha 2, 4 minutos depois, seguiam as carruagens 7 a 12. A mesma voz pedia com insistência que os senhores passageiros conferissem o número da carruagem no respectivo bilhete e se dirigissem para a linha correspondente. Explicou uma vez, duas, vezes, três, vezes, quatro vezes (nesta altura eu já sabia de cor o relambório da moça). Finalmente, dá entrada a primeira composição, carruagens 1 a 6. E eu, esquecida de um país de cestas que não decifrava um painel de informação, verifiquei estarrecida a confusão analfabeta e ansiosa das Samsonites e dos laptops que se atropelavam na busca infundada da carruagem 7, 9 e 10 ,que só partiria daí a 4 minutos na linha contígua. "Oh, menina, pó Porto é este comboio, não é?"
Mudam-se as cestas (com sorte, rapa-se o buço), mas algo insiste teimosamente em persistir…

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O meu buraco na areia é aqui e tem vista para uma ponte


"Tens de falar com ele! Fala com ele ou cava um buraco na areia e grita tudo o que vai aí dentro. Aí, sabes que é o fim, que morreu e poderás, finalmente, despedir-te e fazer o teu luto" (Palavras sábias, de sábias amigas)


Tentei fazer o que me disseste T., legitimei por decreto a SMS como meio de comunicação. Até escrevi mesmo a SMS. Mas, não é por acaso que ela incorpora Short no nome e o que eu tenho para dizer, por muito sintetizado que seja, é Long, too Long... Na verdade, é demasiado longo porque excede o número de caracteres definido e demasiado extenso porque extravasa a capacidade do meu receptor.


Uma coisa eu sei: eu não sou esta gaja neurótica, triste e amarga obcecada pela descoberta do que te poderá magoar (e acredita que aqui, em pensamento, já me ocupei a imaginar situações que nem ouso mencionar - comecei a perceber melhor a semente dos crimes passionais que ocupam as parangonas do 24Horas e do Correio da Manhã). Eu não sou isso, eu sou aquilo que eu quiser que tu acredites que eu seja. Eu vou ser capaz de te desejar, com um sorriso doce nos lábios, que encontres tudo o que tu procuras, que tenhas tudo o que tu mereces, que colhas tudo aquilo semeaste. Eu vou dizer-te adeus, agitando ternura na ponta dos dedos.


Vou cavar aqui o meu buraco na areia e libertar-me deste grilhão de ódio e de raiva que ainda me liga a ti, em breve, muito breve...
(Foto: "Ponte por um canudo" de Nuno de Freitas)


terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

In dubio pro reo???

Para mim, as relações humanas (de amizade, de amor, de cariz profissional, etc.) baseiam-se inabalavelmente no pressuposto da confiança. Este é o alicerce a partir do qual é possível construir tudo o resto.
Os últimos acontecimentos têm-me levado a ponderar se tenho por hábito precipitar esta infraestrutura. Naturalmente, não se trata de de desatar a confiar cegamente num primeiro momento em todas as pessoas que me são apresentadas. Mas, a verdade é que muito rapidamente assumo que, por princípio, a outra pessoa está comigo de boa fé, assumo que a outra pessoa é verdadeira naquilo que me diz. Em suma, pode-se dizer que adopto, na gestão dos meus contactos sociais, o princípio jurídico da pressunção da inocência. Ou seja, até me ser provado o contrário, eu acredito, acredito no Outro.
A arquelogia histórica das minhas emoções evidencia que não foram muitas as situações em que "transitou em julgado a condenação dos arguidos". Contudo, sempre que tal aconteceu, senti essa prova como um rude e cruel golpe na estrutura de confiança que dera como incorruptível. Nestas situações, não perdoo, não sou magnânime. Sou intrinsecamente humana e visceral. Gravo essa situação na pele, na carne, petrificando esse acto impuro. Costumo dizer, que a confiança é como a virgindade. Assumindo que cada relação é única, original e nova, caminhamos virgens nesse trilho até tal estado ser irreversivelmente corrompido. E, aí, para mim, já nada é possível fazer...
Pergunto-me se conseguiria moderar esta postura pós-quebra-de-confiança, alterando o pressuposto inicial das relações. "És culpado, vil, traiçoeiro e cobarde, até me provares o contrário"?
Foto: "Fragmentação" de Margarida Amaral

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

4ª feira de cinzas

O "encontro" com o Seu Jorge deu-se por acaso, numa das promoções da FNAC. Chamava-se Cru e ficou a repousar na estante dos CD's até o espírito pedir novidade. Não foi amor ao primeiro ouvido, nem ao segundo, mas a paixão crescia a cada nova rotação. Ia descobrindo pormenores na letra, na composição, na tonalidade burilada daquela voz negra e fumada.

O Natal trouxe de presente a parceria gravada ao vivo do Seu Jorge com Ana Carolina (disco já antigo e particularmente conhecido pela música "É isso aí" - uma versão The Blower's Daughter do Damien Rice, celebrizada no filme Closer). Este é o disco que, desde então, me acompanha nas auto viagens diárias. Não se gosta logo de todas as músicas com a mesma força, vai-se gostando... um dia de uma, no outro dia, percebemos o sentido da outra e amamos, and so on.

À hora de almoço uma colega brincou com a carne que eu comia, contrariando os preceitos católicos deste dia. Foi, então, que me ocorreu que hoje é 4ª feira de cinzas e isso lembra-me o Vestido Estampado (letra da Ana Carolina):

Acabou, agora tá tudo acabado
Seu vestido estampado
Dei a quem pudesse servir
Agora que eu não posso mais caber em ti

Não quero te ver
Dizem que você não quer mais me olhar
Como velhos desconhecidos
Se você não me escuta, eu não vou te chamar

O amor que eu dei, não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor, agora já tá desbotado
Corra, lá vem a tristeza atirando pra todos os lados

Pegue o vestido estampado
Guarde pra um carnaval
Guarde, que eu nunca te quis mal
Até o feriado, quarta-feira de cinzas e tá tudo acabado

As cinzas simbolizam o carácter perecível, passageiro, transitório, efémero e frágil da vida. Assinalam a possibilidade de conversão e de transformação. Gosto de pensar que as cinzas do que penso, do que sinto e do que faço alimentarão um interminável ciclo de fértil mudança. Outro tempo começa sempre nas cinzas de um tempo que terminou, banhado de esperança pueril e de certezas num horizonte que não se alcança.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Oscilações


Oscilo. Entre a carapaça construída de razão e de legitimidade, que me permite analisar as coisas como elas são, e que me indica um caminho de afastamento, que explicarei aos outros invocando os "factos". E entre um corpo de emoção rasgada e de ferida latente, que me remete para o infinitamente potencial universo dos "ses", e que me impele para o teu colo, para o teu ombro, para o abraço onde todos os outros desaparecem e os factos somos só nós, juntos, indissoluveis.


Só porque é a carapaça que se encontra visível, não significa que o corpo não esteja lá dentro.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Tchhh

E "prontos" já tá!

Ando desde Novembro para escrever 1000 caracteres para submeter uma comunicação a um congresso. O prazo terminava hoje... Até nem correu mal, ainda me sobraram 6 horas e 41 minutos!

Acho que se chama procrastinação, né? (ou então, preguiça crónica...)

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

De hoje em diante?



"De hoje em diante
Eu vou modificar
O meu modo de vida
Naquele instante
Em que você partiu
Destruiu nosso amor
Agora não vou mais chorar
Cansei de esperar
De esperar enfim
E prá começar
Eu só vou gostar
De quem gosta de mim..."

Caetano Veloso


Isto está tudo muito bem, mas serei a única a identificar um obstáculo genealógico na premissa?Se todos nós decidirmos gostar apenas de quem gosta de nós, quem é que vai começar a gostar primeiro?

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

em jeito de balanço, também cai

O Natal passou e o ano aproxima-se do fim. Não resisto ao ímpeto merceeiro do balanço entre o deve e o haver do que finda. Esta altura não é a mais propícia para analisar com objectividade um ano que passou. Sinto-me triste, cansada, desalentada e nem sei bem porquê... A verdade é que na avalancha de telefonemas da época com pessoas com quem não privo há algum tempo impõe-se sempre uma resposta à crucial questão, "então, e tu, o que é tens feito?". Reparo que a minha resposta não é particularmente feliz e pujante, "ah, nada de especial. Tudo na mesma, Continuo na minha casinha. Tenho o mesmo emprego e estou a tentar terminar a tese".
É, talvez 2007 não tenha sido um grande ano no que toca a novidades e revelações. Talvez tenha sido um ano de manutenção. Um período de sedimentação de objectivos e horizontes futuros que se comecem a desenrolar em 2008. O balanço não é de todo mau. Continuar em minha casa, protagonizando o projecto acalentado durante anos de viver sozinha, é bom, é mesmo muito bom. Manter um emprego na área que me permite aplicar os conhecimentos que adquiri durante anos de estudo, com um bom ambiente de trabalho é igualmente muito positivo. Sentir que tenho o apoio e o amor dos meus familiares mais próximos, aprender definitivamente que o lugar onde eles se posicionam é irredutível e imutável face a mim é muito reconfortante. Verificar que o leque de amigos se comprimiu, mas ter a certeza de que os que ficam são imperfeitos, mas verdadeiros no seu afecto, na sua atenção para comigo, é um enorme progresso.
Sobra o amor. Curiosamente a esfera que eu não teria dúvidas em assinalar como a mais importante da minha vida e ainda assim aquela que preenchida de um modo mais imperfeito. Ontem à noite num inesperado atque de insónia e de choro pareceu-me ter um assomo de lucidez. Passou-se quase meio ano desde que estamos juntos e ao fim de meio ano parece-me que não ocupo na tua vida o lugar que desejo. Magoou-me a mensagem de Natal mimética que decidiste enviar-me. Magoou-me o presente indiferenciado que adquiriste com todos os outros, como provava o talão de troca. Magoa-me o desinvestimento, a indiferença relativa e a incompreensão que me manifestas. Quero um lugar único, cimeiro na vida da pessoa com quem estou. Não sei se isso existe, não sei se é possível, mas sei que o temos neste momento e o que este momento promete para o futuro se afasta cada vez mais do que desejo. Não sei se vais pereceber o que te vou dizer. Sei que tens ficado desorientado com algumas das minhas reacções que procuras colmatar com uma desculpa abrangente e desprovida de um real sentido, porque ainda não percebeste, ainda não me percebeste!