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quinta-feira, 3 de julho de 2008

... pouca uva

Então, foi intensa, sim senhor, mas tudo bem esprimidinho resume-se a meia dúzia de linhas:

- Euro 2008:
A moral da história é mesmo, "prognósticos, no fim do jogo...". Os ditos "favoritos" foram caindo que nem tordos até restar uma Espanha invicta no final do campeonato. A Alemanha também lá esteve e, num daqueles heurísticos momentos televisivos, em que se inquirem os adeptos, o jornalista lá perguntava "e, então, acha que a Alemanha vai ganhar a final?" e respondia a senhora alemã com inusitada sabedoria, "ah, eu até gostava, mas eles não se mexem!". Pois, não mexem, mas mordem... só que não é sempre! Humpf! Ainda por cima antipatizei solenemente com a camisa imaculadamente branca, vincada e justa do treinador, sem uma mancha de suor ao fim de sucessivos 90 minutos agonizantes!

- Noite de S. João
Só mesmo para a facção ortodoxa e fundamentalista da festa. As tradicionais orvalhadas do dia santo começaram a orvalhar logo de manhãzinha. Portanto, não se vislumbrou uma nesga de sol e as gotículas de humidade cinzenta e pegajosa decidiram não dar tréguas. A sardinhada exigiu perícia e rapidez, porque, com a chuva, o bicho começava a boiar no prato. A hora de ver o fogo de artifício originou trocas de argumentos persuasivos sobre dispensabilidade do guarda-chuva com os senhores que se encontravam à minha frente. Não tive fôlego para o intenso debate que se seguiu sobre a qualidade do dito espectáculo pirómano, até porque previa o desfecho conclusivo: "ah, o do ano passado foi muito melhor!" (mas, alguém se lembra realmente como é que foi o fogo do ano passado?!?). Passagem pela Ribeira, estadia prolongada em Miragaia pó bailarico, pois claro! Definitivamente, não gosto de chegar de manhã a casa, fico toda trocada.

- Dia de S.João
O despertador lança-me piropos ao meio-dia. Decido ignorar, porque "mulher séria não tem ouvidos". Volta a insistir ao meio dia e meia hora. Constato que não é possível levantar-me e deslocar-me a casa dos meus pais, para deglutir o assado sério da minha mãe. Envio sms, "mãe, não vou almoçar". A mãe telefona: "atão, não vens?", "não, estou muito atrasada", "mas, ainda não vamos almoçar já", "pois, mas não tenho muita fome". Ao que se segue um extenso questionário sobre o conteúdo do meu frigorífico e sobre os viveres com que me alimentarei (a minha mãe tem duas grandes preocupações para comigo: comer e dormir. Mais, a minha mãe tem duas dimensões explicativas para os possíveis problemas que eu possa ter: "ah, não comes como deve ser" ou "ah, deitas-te às quinhentas e não dormes quase nada". Já deixei de retorquir, limito-me a assentir com um lento e envergonhado movimento de cabeça).
No meu vagar, lá me levantei, tomei banhinho, comi chocapics (a base de uma alimentação saudável) e fui até às praias de Gaia esplanar com quem me tem ocupado os pensamentos (e não só...) nos dias que correm. Quem diz esplanar, diz jantar e quem jantar, diz nanar... Não, isso não, porque no dia seguinte:

- Congresso em Lisboa
Lisboa é uma cidade deserta. Não mora lá uma só pessoa. Há figurantes que são pagos para se deslocarem nesse espaço diariamente, pintando-o de movimento e cosmopolitismo. Porquê? Porque, ou eu tenho muito azar, ou não há uma pessoa a quem me tenha dirigido, a pedir uma informação geográfica, que detenha esse conhecimento. Já experimentei com polícias, funcionários do Metro, empregados de café, velhotes desocupados... Nada. Não sabem, não são dali, estão naquele sítio a trabalhar há pouco tempo... Enfim, gasto uma pequena fortuna em táxis que fazem por ignorar o meu sotaque estrangeiro e me exigem que escolha um caminho, entre percursos que desconheço. Puff...
Quanto ao congresso, decidi ignorar a maratona que a organização propunha, exposta num programa de 200 páginas (!!!), e optei pela solução congresso-buffet. Escolhi umas coisinhas e fui peregrinando no meu ritmo. Concluí que há gente com muita lata e outra tanta (nomeadamente, eu) que não tem nenhuma. O grau de lata varia em função da posição que ocupamos: comunicador/receptor. Há comunicadores com muita lata, malta que não tem nada, mas mesmo nada para dizer, mas ainda assim vai lá mostrar a inocuidade dos primeiros anos de trabalhos de doutoramento (que suspeito, estarão eternamente inacabados). Há receptores (como eu) que constatando o desaforo intelectual que algumas apresentações constituem, nada dizem. Há ainda a estirpe que opta por falar, elogiando o "notável trabalho do caro colega". Irrita-me sobremaneira este pa-ta-ti-pa-ta-tuá. Irrita-me ainda mais, não ter tomates para quebrar com essa polida e densa hipocrisia social que alimenta egos e nada acrescenta ao trabalho que se pretende realizar. Portantos, ignorei os "parabéns" e os "podia dar-me o seu e-mail, tinha muito interesse em trocar umas impressões...". Bah!

- O regresso:
Em comboio rápido, com ar condicionado, com direito a recepção na estação de Campanhã e mais jantarinho e tutti-tutti, foi bom, muito bom. Mas, esta semana foi presenteada com um capricho tecnológico. É que até ontem, como diria a Carol de uma qualquer Little Britain, perto de nós: COMPUTER SAYS NO! Felizmente, já se resolveu...

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Matar-nos mais um bocadinho



Há uma pedra que cresce e que me afasta de ti. Alimenta-se dos sedimentos de silêncio e de incomunicação que depositamos entre nós. Agigantou-se de tal modo, que não nos permite estar na mesma divisão. Dilatou-se ao ponto de me expulsar da nossa cama, porque não cabemos lá os três. E tu insistes em não a quebrar. Teimas em não perceber que a minha força diminui e que os golpes que desfiro nessa montanha são cada vez mais inócuos e inofensivos. Viras a cara para não perceber que esse pedregulho me entala nas paredes da nossa casa, me esmaga na estreiteza da minha garganta. Desespera-me o esforço do gesto cansado que procura antecipar o que queres, o que te faz feliz. Desgasta-me o estado de alerta que não me deixa dormir, porque aguardo o sobressalto e a agitação em que ficarei, assim que ouvir a tua chave na porta, assim que o mundo declarar que vais invadir e que, a partir daí, se inicia a guerrilha terrorista da palavra, do movimento, do silêncio, da quietude que, a partir do inesperado, me ataca e transforma esta serenidade fria de alumínio numa lâmina que me atravessa a garganta. E tu, até aí, não dizes nada. Tu, depois disso, nada dizes. Nada muda. Colocamos a serenidade cortante em posição de ataque e volta tudo ao início, tudo a repetir-se: adivinhar-te, sobressaltar-me, vigiar-te, armadilhar-me, chorar-te, matar-nos mais um bocadinho...

Vivemos em tormento e tu insistes em virar a cara para o lado, para a frente para trás, para todo o lado menos para o animal em agonia em que nos transformamos. Porque não falas? Estarás bem assim? Será isto o que tu queres? Com certeza é, mas a mim não me basta. Para mim, basta! Para que acordes, para que percebas que isto assim não está bem, para que mudes provisoriamente durante duas semanas, para pelo menos ganhar um abraço, conquistar um olhar, arrancar-te uma palavra que me seja dirigida. Para que recordes o desespero gravado no corpo da última vez que estiveste próximo do abismo de me perder. Isso, essa memória vai fazer-te entender…

Mas não. Já não há memória, já não há medo, já não há olhar e os teus braços não se movem para me abraçar. Os teus braços apoiam-se na pedra que nos separa, enquanto arremessas balbuciantes "não sei” a tudo o que pergunto. O teu corpo instala-se nessa maldita laje que nos separa para me atirar, sem aviso prévio, essa indiferença e apatia que desconheço. "Não sei"?!? Mas, então, há quanto tempo "não sabes"? Há quanto tempo te arrastas para casa como quem caminha para um covil de lobos? Há quanto tempo me magoas propositadamente? Há quanto "não sabes" e ainda assim fingias surpresa quando te dizia que não estávamos bem, que precisávamos de conversar? Há quanto tempo "não sabes" e eu me consumo sozinha neste pântano de culpa por não nos querer assim?

E eu, que era só certezas, desfiz-me nesta espiral de loucura e irracionalidade que te vasculha os bolsos do casaco em busca de uma razão chamada Maria, Alexandra, Rosa... E eu, que só precisava de esboçar-te um olhar, indiciar-te um sorriso, para te ver rendido à paixão, perco-me neste catálogo de artifícios de sedução inúteis perante a força da tua indiferença. E eu, sempre a poupar-te, porque tu sofrerias mais, tu eras o eterno e desajeitado apaixonado. E eu, sem dúvida, acharia fácil deixar-te partir, até ao momento em que descobri que já cá não estavas, que tinhas abalado numa noite que desconheço, sem dizer adeus, como um ladrão, roubando-me o que me pertence: o poder de decretar a tua partida. Porque, agora, estou refém deste quarto vazio, confundindo as migalhas com o bolo, misturando o amor com o apego, Achando que, perante esta dor, a felicidade é adivinhar-te, sobressaltar-me, vigiar-te, armadilhar-me, chorar-te, matar-nos mais um bocadinho.

Não sei se a História e as histórias são pedagogos eficazes dos afectos, das emoções e dos sentimentos. A compaixão redigiu esta história que não é minha, mas podia ser, porque é de alguém muito próximo que nunca imaginaria (e que nunca se imaginaria) encontrar no enredo que vive nestes dias difíceis, lodosos e cinzentos. Que o sorriso, com que pintas de azul os dias, se desenhe novamente no teu rosto, D.
Foto: "Longest Journey" de Thorsten Jankowski.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Deus, afinal existes e guias um bus!

E se as sete da manhã de sábado fossem presenteadas por uma sms de uma quase desconhecida, bradando:
“Boizola, é o meu motorista! Deus, afinal existes e guias um bus!!!”

Os festejos do 25 de Abril no Porto são cada vez mais deprimentes. A última vez que assisti ao entoar da Grândola na Avenida dos Aliados foi há dois anos e, desde então, pensei “enquanto me lembrar disto assim, não torno cá”. O (inevitável) Coral de Letras, uma aparelhagem sonora muito rafada e uns grupelhos de resistentes dispersos e tímidos. A partir desse ano, privatizou-se (irónico, não?) a festa que, normalmente, dá lugar a jantarinho em casa de amigos. Sexta feira lá se fez a jantarada.

Fiquei contente com a ideia de (aparentemente) irem pessoas novas. A partir de uma determinada altura (não vou dizer idade, humpf!) é difícil renovar as águas paradas da sociabilidade e, portanto, alegro-me sempre que essa ténue possibilidade espreita. Rapidamente se esvaiu tal cenário. “Então, quem é que vem? Ah, é o não-sei-quantos? Hum, conheço, foi meu prof na faculdade. E a fulaninha? Pois, sei quem é. Era a namorada do cicraninho que fazia parte da Associação de Estudantes”. Enfim, anátemas de uma cidade que, às vezes, mais parece uma junta de freguesia.

O M. foi meu professor numa cadeira de primeiro ano da faculdade. Mas, é um gajo novo, de esquerda e mai-não-sei-quê, maneiras que findo o 1º ano (brindado com 17 – avaliação que lhe deve ter criado a ideia que eu tinha dois dedos de testa) a gente sempre se tratou por tu. É bom moço e, no contexto do jantar, lá veio o tradicional preâmbulo da conversa, “então e como é que andam as coisas?”. Rapidamente, começa a expor a sua argumentação sobre o estado de sítio em que a instituição Universidade se encontra, a mercantilização dos seus propósitos, o governo, a globalização… Eis que, no meio da sua elucubração teórica, penso imediatamente no L. (amigo, com A maiúsculo) que nutre idêntica simpatia e fulgor oratório pelas temáticas. E eu, achando-me a miss match maker lá do sítio vai de o meter ao barulho:“Oh L., então o que é tu achas do modelo fundacional das universidades? Aqui, o M., estava dizer-me que blá-blá- blá?”
É assim, a coisa até podia ter corrido bem, mesmo muito muito bem. E não estou a entrar no raciocínio linear do “já que ambos nutrem simpatia por espécimes do mesmo género, porque não?”. Não, eu fui além desse pensamento rasteirinho. De repente, parecia-me que 1 e 1 só podia ser 2: são ambos solteiros, são gajos atentos aos que se passa no mundo, gostam de falar e de discutir essas situações, são de esquerda, logo isto pode correr bem. Colossal equívoco de análise. A conversa começou a descambar logo de início. De facto, ambos gostam falar das mesmas coisas, mas, nem um outro, nem outro, é particularmente dotado para ouvir sobre esses mesmos assuntos. Especialmente, ouvir posições diferentes, porque originárias de pólos (de esquerda) diametralmente opostos. Maneiras que a amena conversa degenerou em drama queen que, por pudor social se arrefeceu, mantendo-se, contudo, a faísca das leves bocas, cuja força crescia à medida que o vinho soltava as línguas.

O jantar acabou tarde (5 da manhã é tarde para um jantar), mas ainda estávamos decididos a ir dançar. Pusemos pé ao caminho e, nessa senda, fomos perdendo companheiros da luta do baile que, cobardemente desertavam em táxis. Fiquei eu e o L. no antro do (quase) costume até o dono nos expulsar amigavelmente.

Portanto, rumamos à paragem de autocarro. Rapariga bem mandada, opto por não conduzir, sempre que bebo. Rapariga mais preguiçosa do que bêbada, geralmente, prefiro não beber e poder conduzir. A última vez Baco venceu a Preguiça foi no último dia de 2007, brindado com a descoberta da divindade dos transportes púbicos: Buseus, de sua graça. Eu e o L. achamos que era um presságio do que 2008 nos traria. Ora, qual não é nosso espanto quando às 7 e 20 da manhã, o autocarro do L. se aproxima da paragem, abre as portas e tcharam: lá estava ele. Lindo, loiro, fresco, no seu posto de motorista zeloso, com um sorriso que ofuscava de tanta beleza.

Já muito embalados e etilicamente desbocados, não contivemos o riso cúmplice. O L. entra, senta-se logo no banco da frente e eu atiro com um:
Moi - Ai, eu se calhar vou no teu autocarro que o meu nunca mais vem...
L. - Ah! a que horas é o teu?
Moi - É agora, mas os senhores nunca cumprem...
L. - Ai não, não cumprem. Os senhores cumprem, não cumprem?
Buseus - (entre risos) Sim, nós cumprimos. Deve estar aí mesmo a chegar.

E puff, lá foi ele. Razão pela qual se seguiu a minha mensagem, incompreensível, fora do seu contexto (e mesmo com ele…). De modos, que há um Luís (que recordo vagamente), rapaz apresentável, dotado de massa cinzenta, que (por razões de timming) estava em stand by para quem-sabe-um-dia que deve achar "olha aquela rapariga que eu até achava sensata e quem-sabe-um-dia, afinal não joga com o baralho todo..."

Não Esquecer - Escrever ao Provedor do Cliente. Felicitar pelos critérios estéticos que presidem à política de recrutamento da empresa. Sugerir que os contactos telefónicos e as fotografias dos colaboradores sejam disponibilizados na página web, com vista a uma maior proximidade e humanização do serviço prestado ao público.


Foto: Pedro Correia in Jornal de Notícias.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Desmemorizando

Dizem-se aquelas coisas de circunstância perante uns provectos 80 anos, "ai quem me dera chegar lá"! A minha avó chegou lá no sábado. Este ano, ela ainda consegue saber que lá chegou. Em discurso telefónico, transporta a confusão cronológica de histórias repetidas, com pormenores trocados e personagens anónimos. Responde às correcções quotidianas, dos nomes das coisas e da ordem dos gestos, com um humilde (e quase envergonhado) "eu sei, filha, eu sei". E o pior é que eu acho que ela sabe aquilo que todos nós, família mais próxima, sabemos: inexoravelmente, a memória definha e a "minha avó" desaparece aos poucos...
É uma forma de demência devida à morte das células cerebrais que começa por aniquilar a memória e, subsequentemente, as outras funções mentais, determinando completa ausência de autonomia.
Foto: "O sentir das presenças I", de joãoveríssimo

sexta-feira, 11 de abril de 2008

(desen)laços

É, muito provavelmente, um problema meu. Será, muito provavelmente, um problema que tão cedo não irei resolver.

Comparativamente à população que me rodeava, aderi muito tarde ao uso do telemóvel. Achei, durante muito tempo, que era uma moda e que iria passar. Puro, duro e redondo engano. Veio, instalou-se com modos senhoriais, e instituiu um modo de governação muito próprio, que perpassa as mais diversas esferas da vida. Deixei de estranhar a cobrança que bate à porta sempre que uma chamada não é atendida e sempre que, inevitavelmente tendo ficado registada, não é devolvida no tempo sentenciado como justo e certo. Contudo, ainda não assimilei esta terra-de-ninguém-não-protocolada das sms. Eu até acho graça ao exercício de escrita, onde as palavras adquirem outra forma, alinhando-se com outro ritmo e novas disposições afluem por caudais diversos. Mas, para mim, decretei funcionalmente o uso desse tipo de mini-mensagens. As sms servem o propósito de transmitir recados (“chego às não sei quantas horas”), colocar perguntas de resposta simples (“sempre vais ver o jogo ao café?”), jogar com outras pedras num possível tabuleiro de sedução (“vi-te e estavas linda…”), partilhar alguns estados de espírito (“penso em ti…”). Nesta prosaica e tabelada utilização não cabe o esclarecimento de possíveis mal-entendidos. Pelo contrário, acho que as sms têm a propriedade de os gerar, bem como de os agudizar.

Qual é o problema de uma conversa em que os olhos se tocam e atentam num exercício completo (mas, ainda assim) muito complexo de (im)provável comunicação??
Mais, qual é o problema contigo?


Intuí cedo que não estavas bem, que não estávamos bem. Questionei-te atempada e repetidamente sobre o que é que se passava. A dada altura, comecei a acreditar no disco riscado que a tua boca debitava “não tem nada a ver contigo. Sou eu que não ando bem”. Por isso, foi com surpresa, com mágoa e com um inexplicável pânico que, num habitual final de tarde, recebi um “acabou”, embrulhado em clichés e palavras feitas. Procurei desatá-lo, desmontá-lo, dissecá-lo para te comprovar com rigor científico a insustentabilidade da tua doutrina. De nada valeu. E eu (que não sei porquê) me orgulho da digna capa de calma e tranquilidade que habitualmente me cobre, desfiz-me num choro inútil e incontido. Vestida de descontrolo e desespero, presenteei-te com a agilidade cruel que a mágoa, às vezes, permite. Em segundos, ou nem isso, passei em revista as nossas imensas conversas, os teus incontáveis desabafos, enumerei por ordem crescente a listagem das tuas fragilidades e decidi: vai ser aqui! (Ainda hoje me espanto com esse irrepetível processo que protagonizei.) Identificado o alvo, disparei com a precisão certeira de um atirador furtivo que dessa arte faz profissão.

Insistes em colocar-te sempre, e em todas as situações, como expatriado da vida, como vítima inocente que, com tudo e todos, sofre e que, por tudo e todos, é abandonado e maltratado. Por isso, arremessei: “Se queres terminar, então terminamos. Mas, repara, neste momento, estás a fazer história e quero que tenhas noção disso. Eu continuo aqui, no mesmo lugar em que me apaixonei por ti. Eu continuo a amar-te. De acordo com o que me contaste, pela primeira vez, és tu quem está a acabar. És tu quem está a decidir virar as costas e ir embora. És tu quem me abandona”. E foi com um inconfessável prazer que vi o desespero assomar-te o rosto e a irracionalidade feita grito na tua boca: “Vai-te embora! Vai-te embora! Vai-te embora…”. Foi assim que de mim te despediste. E eu fui. Arrastando um pesado vazio nos pés, um horizonte cego nos olhos e uma pedra no lugar da garganta.

Foi um tempo de estrutural mudança para mim. Nesse mês, terminava o curso e ao fim de 17 anos nas carteiras da escola eu não sabia o que fazer, não sabia o que aí vinha e tentava orientar a jangada feita de incerteza em que embarcara, munida de indecifráveis coordenadas e inúteis bússolas que apontavam o Sul, o Este, o Oeste… nunca um Norte. Em relação a ti, eu carregava apenas uma verdade: aquela não podia ter sido a nossa última conversa. Tu foste embora, mas tu haverias de voltar.

Isto era um dogma diluído em mim. Não era nítido, nem tão pouco verbalizável. Mas, eu sabia-o e, sabendo-o, esperava-te: dias, semanas, meses… Meses de espera sem nos cruzarmos uma única vez (nós que estávamos juntos todos os dias), meses de espera a catar informações de amigos comuns, sem nunca os questionar directamente a teu respeito. Até tu, no tempo que escolheste, decidires regressar. E eu lá estava, a sorrir-te e a falar-te como se não tivesse passado quase um ano. Como se nunca se tivesse rasgado o fino véu da nossa intimidade. Depois desse encontro, tu foste vindo de mansinho, como um menino regressa ao colo da mãe depois de uma travessura. E eu (estupidamente) recebi-te como tal, como uma mãe, cujo amor não se corrompe. A condição de amante, que se interpunha nesse amor, era apenas uma: nunca, mas nunca mais me vires costas, recusando-me a chave de interlocução que me pertence, isso não!

O que tu fizeste? Está bom de ver…

Como um decalque, o relevo do sofrimento irrompeu novamente em mim. Porém, foi mais curto, porque agora não repousava da certeza do teu regresso, enxotava-o a minha vontade de te abandonar definitivamente. Não sei se o soubeste, mas foi aí, nessa tarde de domingo com sol, em que não me quiseste namorada que me despedi de ti. Foi só aí e nunca antes. Adeus, é uma palavra cujas letras se embolam na boca. É doloroso articulá-la. Mas, quando expulso o último s da boca, é um poço que irreversivelmente se tapa.

Desde então, de vez em quando. cruza-nos a estreita morfologia do convívio social aqui, do burgo. Nunca deixei de te saudar cordialmente. Mais do que uma vez, o teu olhar acusou a falta de calor com que me dirijo a ti e que contrasta com os demais que nos cercam. Mas, com essa ténue iniciativa da minha parte, sentes-te empurrado para a posição em que não te sabes ver: a posição de agressor e não de vítima. Acho que estes anos todos, sempre desejaste secretamente uma cena pública em que eu te enxovalhasse, um desprezo feito coisa visível a todos os olhos, um safanão dirigindo-te para o lugar que é teu de direito e fora do qual tu não sabes como agir, como falar, como pensar. Mas, não. Tal nunca aconteceu… O que é curioso é que ao fim destes anos todos, face a mim, ainda tentes colocar–te nesse papel.

Num apertado, escuro e ébrio bar de sábado à noite, as cinco e meia da manhã presentearam-me com a tua patética tentativa de o fazer. Como? Por sms, pois claro. “responde-me por favor… desprezas-me assim tanto ao ponto de me virares a cara?”. Pelos vistos, estiveste ali, viste-me e não conseguiste vir ter comigo…

Sabes, não é bem desprezo. É mais pena de ti e do ardiloso esforço que depositas nas armadilhas que constróis para te apanhares a ti próprio, numa contínua espiral de infelicidade…
Foto de Franscisco Garrett

sexta-feira, 28 de março de 2008

Vira ou segue em frente

Já fui deixada pelo caminho algumas vezes. Naturalmente, também já fui abandonando algumas criaturas na berma da estrada. No apertado e desconfortável veículo de comunicação que, das primeiras vezes, se habita e se procura partilhar, nem sempre se chega a bom porto. Refiro-me aos contactos iniciais, aos preâmbulos da imagem que construímos do outro, onde tudo se cata, tudo se pesa e se avalia. Com a experiência de algumas viagens e, sobretudo, de promessas de jornadas que não o chegam a ser, comprime-se o tempo dedicado à primeira avaliação do suposto companheiro de navegação. Não sei se é a capacidade de medir o outro que se aprimora ou se é paciência que se esboroa aos poucos. A verdade, é que percebo (ou acho que percebo) com cada vez mais facilidade, após alguns lampejos de comunicação, se há possibilidade de peregrinar em conjunto, ou não.

Houve alturas, em que, querendo prosseguir viagem, fui percebendo que do outro lado a vontade não era idêntica. Provavelmente (muito provavelmente), já fui a gaja chata que não se enxerga e não descola. Contudo, dentro das minhas limitações interpretativas, sempre que descortinei que a querença (e a crença, também) do outro não coincidia, naquele ponto, de estar ali, comigo e prosseguir. Então, parti ou escancarei a porta para que, quem assim o desejasse, partisse. Quem já viajou guarnecido de companhia, sabe que não é possível ir muito longe com quem não comunga de uma idêntica disposição de descoberta. Por isso, sozinhos apenas estamos se assim o decidirmos e mal acompanhados também.

Não raras vezes, essa partida é acompanhada de uma certa depuração dos sinais do ex-viajante do veículo. Em tempos de comunicação mediada telefonicamente, e concluída a impossibilidade de estabelecer mediação, portanto esvaído o significado, apaga-se também o significante da lista. Este processo, para mim, é muito pessoal, muito íntimo, é o círculo fechado e autocrático, onde, senhora de um incomensurável poder, decido (ou, pelo menos, penso que decido) quem entra e sai da minha vida. Nunca me ocorreu panfletar a decisão, submetê-la ao escrutínio de terceiros e muito menos dos visados.

Ora, o inverso já me aconteceu algumas vezes. Desta última vez, detive-me a pensar um pouco mais no assunto. Tínhamos falado algumas vezes no Messenger, não muitas, porque não sou grande apreciadora do instrumento. O meio faz a comunicação e a minha onda é mais da co-presença (que é como quem diz fronha-to-fronha), portanto, saímos uma vez, para tomar o café da praxe e, enfim, conhecermo-nos. A introdução bastou-me para compreender que não queria ler mais capítulos. Precipitado? Talvez, mas ao contrário de um livro, que eu decido não ler, uma pessoa, no caso ele, tem sempre margem de acção para me convencer do contrário e conduzir-me a acreditar que ali, está uma história que, por vários motivos, vale a pena ser lida. Neste caso, não foi isso que aconteceu. Eu não quis ler e, com excepção de algumas sms de fazer sala, ninguém me convidou a deixar de ser analfabeta.

Perante isto, foi com algum espanto que o meu telemóvel me informou, com inesperada mágoa, que: “Tendo em conta que não existe reciprocidade… vou apagar o teu contacto. Boa continuação e um bjo”
“Ehhh, atão, tá”, pensei eu. Ainda por cima, sempre embirrei com a expressão “continuação”, nunca percebi, continuação de quê? O que só me levou a confirmar a decisão que já se havia cristalizado. Bom, mas se comunicação de apagar o contacto me surpreende, a sua não concretização já me exaspera.

Hoje, tinha um e-mail que se arrastava nos porquês que eu não havia fornecido para justificar a minha ausência (!!!), “não era por nada, era só por curiosidade e tal”. Mais, acrescentava que caso eu não respondesse, se veria forçado a diminuir a sua consideração (!!!) por mim. Lá respondi, tal como lhe expliquei, não movida pela redução da minha consideração no seu considerómetro (que é coisa que evidentemente não me interessa), mas porque as questões, quando colocadas, merecem sempre uma resposta, sempre. E disse aquilo que, para mim (e se calhar, para mais alguém), é complicado por em palavras… não me senti minimamente impelida, motivada em pensar uma viagem contigo, em conhecer-te.
Fiquei a conjecturar sobre a situação… É evidente que a criatura simpatizou (ou lá o que é) comigo. É evidente que pensou que comigo se teria passado o mesmo e esperou, desejando que eu o contactasse, que eu resgatasse e o conduzisse pelos corredores do que o encantou em mim. E a ausência de reciprocidade a que ele se reporta, tece-se nesse reduto imaginário, nessa projecção da nossa vontade no outro. Eu falhei, porque não lhe devolvi essa imagem. Ele falhou, porque não percebeu que não ameaçamos sair do jogo, para ganharmos a simpatia da equipa e termos o capitão a pegar em nós pelo braço, “oh, não vás, fica mais um bocadinho”. Não se anuncia uma partida, acalentando o desejo contrário. Ou resolutos e (mais ou menos) dignos vamos embora, sem olhar para trás. Ou ficamos, porque enquanto houver bola em campo e até o árbitro apitar, o jogo continua...
Foto: "Ou vira ou segue em frente" de Vieirinha

quarta-feira, 26 de março de 2008

Viver (também) é recordar…


Ao contrário do que Vítor Espadinha proclama, não acredito que recordar seja viver, mas sei que viver também passa aí, por recordar… O concerto dos Portishead a que hoje vou assistir (sim, eu tenho bilhete para a plateia… há muito tempo) é também um exercício de nostalgia.

Dummy, o primeiro álbum da banda, foi meu primeiro Compact Disc e foi também o primeiro presente do meu primeiro namorado. Perdi a conta das vezes que em que me arrastei com aquela voz, pelas paisagens melancólicas, pontuadas por tonalidades cinzentas, ora escuras, ora expoentes exacerbados de luminosidade.

Em 97, tinha entrado para a faculdade e, entre os colegas de curso, destacava-se o N., inicialmente, por apenas me ter resgatado da massa anónima das restantes criaturas que por ali se juntavam. Aproximamo-nos de uma forma lenta, alimentada por horas de cafés e chávenas de conversas e por matinés de cinema que, sem dificuldade, se sobrepunham ao horário das cadeiras mais chatas. Durante muito, mas mesmo muito tempo, eu não percebi o que é que aquele homem descobria em mim que lhe agradava e que o forçava a ficar, a cativar-me. Na altura, ele era 8 anos mais velho do que eu. Naturalmente, hoje essa diferença cronológica é igual, mas há dez anos atrás, eu tinha apenas 18 e, perante ele, nada de relevante para contar, nada de essencial a acrescentar-lhe, o que dilatava distância a que dele me via.

Percebi há algum tempo que as pessoas por quem me enamorei partilham de algo em comum: a capacidade de me despertarem algum tipo de admiração. Há algo em todas elas que me maravilha e que me é estranho. Algo que eu considero inalcançável, inatingível, raro e belo. Algo que eu quero, que desejo, que anseio por incorporar em mim. No caso do N., esse assombro nascia no reduto intelectual, na erudição que eu lhe reconhecia, na capacidade que eu testemunhava de articulação de toda a sua experiência e saber para a produção de um sentido e de inteligibilidade do mundo.

Acho que nunca lhe disse isto, e duvido que ele suspeite, mas só muito recentemente, me sinto realmente de igual para igual numa conversa com ele, sem complexos, sem receios de me espalhar ao comprido numa imbecilidade qualquer. Não porque tenha deixado de ser imbecil e ignorante, mas porque percebi que, entre nós (como em todas as relações humanas autênticas) o que é nevrálgico, na intimidade que se tece, não é o conteúdo. Não é relevante o número de livros que se terá lido, os filmes que se terão visto, as viagens que se realizaram... A base do nosso entendimento residia na forma. No modo cúmplice como comunicávamos de improviso e sem pauta nos instalávamos como velhos conhecidos num sentido de humor partilhado. No riso, na gargalhada fácil que despertávamos no outro, a partir do elemento quotidiano mais banal ou a partir de um tabu, de um assunto interdito, de um acontecimento traumático e designado pelos outros como coisa séria, com a qual não se brinca… Esse era (e é) o ponto do nosso entendimento.

A partir daí, foi fácil concluir que estava apaixonada, mais fácil ainda reconhecer um desejo crescente, primordial e desconhecido que apenas o corpo poderia aplacar. Foi numa sessão do FantasPorto, Blue Velvet do David Linch na tela, e uma te(n)são que crescia entre nós como arame farpado, já doía estarmos próximos e não nos tocarmos. Esse foi o primeiro beijo e uma das maiores descargas de adrenalina, prazer e sensualidade que os meu lábios já testemunharam. A partir de então, as matinés de cinema viram-se trocadas por tardes de sol filtradas na janela do quarto, pela roupa amarrotada que enfeitava o soalho, pelo cabelo em desalinho que nos ligava, suados, exaustos e insaciados. Tenho uma imagem muito nítida de uma dessas tardes. Regressava a casa, no final do dia, num autocarro apinhado de gente remetida de locais de trabalho acinzentados e baços e acreditei genuinamente que teria de me esforçar para ocultar daqueles olhares inquisitivos, o brilho, a lúxuria e a felicidade que exalava do meu corpo.

Nesse verão, há dez anos, os Portishead vieram cá, ao festival do Sudoeste. As amarras parentais não me permitiram estar lá com ele, a ouvi-los. Recebi um postal que dizia “Nobody loves like you do”… Dez anos depois, sabemos que não foi assim. Mas, sei que houve um dia em que também o foi e isso é meu, intrínseco e indissolúvel…

To pretend no one can find,
The fallacies of morning rose,
Forbidden fruit, hidden eyes,
Courtesies that I despise in me
Take a ride, take a shot now.

‘Cause nobody loves me,
It's true,
Not like you do.

Covered by the blind belief,
That fantasies of sinful screens,
Bear the facts, assume the dye,
End the vows no need to lie, enjoy,
Take a ride, take a shot now.

‘Cause nobody loves me,
It's true,
Not like you do.

Who oo am I, what and why?
‘Cause all I have left is my memories of yesterday,
Ohh these sour times.

‘Cause nobody loves me,
It's true,
Not like you do.

After time the bitter taste,
Of innocence decent or race,
Scattered seed, buried lives,
Mysteries of our disguise revolve,
Circumstance will decide.

‘Cause nobody loves me,
It's true,
Not like you do
(Sour Times, Portishead)

quinta-feira, 20 de março de 2008

De bestial a besta

Um pequeno incidente de (in)comunicação ocorrido num barzito aqui, do burgo, fez-me relembrar a velha máxima que sintetiza a facilidade com que, no futebol (mas, não só...), passamos de bestiais e bestas...

Sábado à noite, eu, duas amigas e um amigo. Dois de um lado da mesa e os outros dois do lado oposto, cinzeiro no centro (sim, pode-se fumar) e muita conversa em circulação. Eu estava de costas para as restantes mesas no espaço, portanto, apenas via os dois amigos que estavam à minha frente.
Ora, à custa de andar a puxar a porra da mala pelas Lisboas e pelos comboios e pelos táxis e mais sei lá o quê, dei um jeito às costas que, nesse dia, praticamente me imobilizava (na realidade, é apenas velhice precoce localizada na zona lombar e, foi-se a ver, não era assim tão grave, porque nesse dia fiquei a dançar até às 7 da matina). Bom, ao fim de algum tempo procurando uma posição mais confortável (ou menos dolorosa, consoante as perspectivas), sou obrigada a voltar-me para as restantes mesas do bar e para o imberbe grupo de gralhas que estava mesmo ali ao lado. Ajeitado o reumático, verifico que dois miúdos desse grupo, me olhavam fixamente com ar divertido. O olhar era tão ostensivo que igualmente os fitei. Pois, para minha grande surpresa e estupefacção, um deles (por acaso, era o mais engraçadito... menos mal): inclina o tronco ligeiramente para a frente, esbugalha lentamente os olhos, encurrilhando a testa, entreabre os lábios e... PÕE A LÍNGUA DE FORA!
Eu observava-o agora com espanto, perplexidade e uma ponta de desprezo, enquanto pensava: "esta agora, o que é que o raio do puto quer?!?". O compincha da criatura, adivinhando o meu pensamento e percebendo que eu não falava "aquela língua", resolve traduzir: "ah, e tal... chamaste a atenção do meu amigo!”. Pois, claro, então não é evidente! Pedagogicamente, respondi-lhe, "Ah, está bem. Mas, devias pensar em domesticar o teu amigo primeiro, antes de o deixar sair à rua e interagir com pessoas”.
A custo (porque me doíam as cruzes), voltei-me novamente para a minha mesa. Breves instantes passaram e um zum-zum adensava-se nas minhas costas (e não era o reumático, que ainda não estou nesse ponto de chiar dos ossos). Voltei-me novamente, olhando as mesmas criaturas. Desta feita, era o mais engraçadito quem falava. O episódio incial provava que o gato não lhe tinha comido a língua, contudo, constatava agora que alguma coisa lhe havia carcomido a zona do cérebro responsável pela função linguística. Eu juro que prestei atenção, mas não encontrei a ponta do novelo daquele raciocício: “não sei quê, porque eu sou gajo, e eu tu fosses gajo eu falava contigo de outra maneira, mas como és gaja… porque se fosses gajo, como eu sou gajo, a gente resolvia a coisas de outra forma...”. Consciente das minhas limitações de género, declarei, “ok, se eu fosse gajo, tu falavas comigo. Mas, como vês, não sou. Por isso, é inútil prosseguirmos”.
Voltei-me para a mesa, passaram uns momentos e nova investida. De entre as vociferações que as criaturas proferiam houve uma que se revelou crucial: “ah e tal... és feia, és mesmo feia...”. Eu achei graça, mas curiosamente perante aquela frase os meus amigos mobilizaram-se (acho que não queriam ficar mal falados, com fama de se fazerem acompanhar por uma rapariga mesmo feia). Foi perante o único gajo que estava na mesa (que por acaso tem 1,90 cm) que ele se explicou e que eu fiquei a compreender:
“Ah e tal, já estava aqui há algum tempo e a tua amiga chamou-me a atenção, achei-a, prontos, engraçada e gostava de a conhecer.”
Hummm, eu tenho andado um bocado arredada destas lides, mas desde quando é que por a língua de fora deixou de ter uma conotoção trocista e infantil e passou a ser utilizado como um cumprimento, um elogio (naturalmente, reporto-me à idade adulta, o jardim de infância e a escola primária não contam)?

É sabido que, no futebol, equipa que ganha, tem um treinador bestial. Mas, se a mesma equipa, com os mesmos jogadores e com a mesma táctica perde, defraudando as expectativas dos adeptos, o mister é indiscutivelmente uma besta. Já me tinha esquecido que no jogo do engate rasteirinho é a mesma coisa. Num espaço cheio de gente, há uma pessoa que, por algum motivo (bem, na verdade estamos a falar da vertente rasteirinha, por isso, normalmente não são os lindos olhos...) prende a nossa atenção. Se vamos até lá e a coisa corre bem: bestial. Se levamos para trás: ganda vaca, tem a mania qué boa, mesmo feia... Besta!

Como diria o outro "e eu qui sô ruim? eu qui sô mau treinadô?"

quarta-feira, 19 de março de 2008

Como nossos pais*

Diz que é Dia do Pai e eu vou dar um salto até casa dos pappis, abancar-me pó jantarinho e dar duas de letra com o velhote. Passar em revista os disparates semanais do governo, dizer mal do benfica (ainda quero ver o que é que ele acha deste achado que é o Chalana como treinador!), lamentar solidariamente a (mais que provável) descida de divisão do Leixões ('taditos, compraram um autocarro à séria pa fazer bonitinho na liga, mas é tão grande que eu desconfio que, na próxima época, quando voltarem a ir jogar à Rechousa e a Nogueiró dos Vinhos, a traquitana não deve passar pelas vielas esconsas).
Nunca chamei o meu pai de pai, chamo-o pelo nome. Sempre foi assim. Enquanto criança, os amigos perguntavam se era meu padrasto, ao que eu respondia: "não é o meu pai, mas chamo-o Zé, porque é o nome dele" (parecia-me tão evidente!!). Acho que nunca fomos próximos, íntimos, fluidos e totalmente autênticos um com o outro. A minha adolescência marcou um período de conturbada existência entre nós, apaziguado com frequência e com uma diplomacia que causaria inveja a qualquer funcionário das Nações Unidas, pela minha mãe (que chamo de mãe e nunca me ocorreu ser de outro modo).

Conservador. Acho que é uma das palavras que define o meu pai. Razão pela qual, quando transmiti a intenção de morar sozinha (escapando ao fado geracional de sair de casa dos pais para casar) pensei que seria decretado o "estado de sítio" da nossa relação. Nada disso! Perante o meu comunicado, ele apenas pergunta: "mas, vais viver com um companheiro?" (não sei como contive tamanha alarvidade de riso e gargalhada perante esta expressão, tão PREC... um companheiro, camarada, campesino...).

Desde então, o denso manto de neblina que separava e bloqueava a nossa comunicação foi-se levantando, permeabilizando-se a alguns raios de luz que o deixam ver com mais nitidez. Fica clara a sua aversão à mudança, mas também uma fidelidade canina à família e aos amigos, uma honestidade a toda a prova, uma existência colada aos princípios em que acredita, uma certa obstinação face à palavra e ao compromisso. Quando a minha mãe se chateava comigo, uma das piores coisas que ela me podia dizer era, "és igualzinha ao teu pai". Aquela frase arremessava-me de novo para o ponto zero, para um ponto próximo dele, de onde, eu achava que me queria afastar. Hoje, perante tal declaração, apenas sorrio. Se calhar, é mesmo muito provável que comunguemos de um mesmo património de carácter. Podia ser pior... podia ter herdado o benfiquismo (argh)!!

*De preferência, ao som de Ellis Regina
Foto: "Himba Tribes" de Nuno Lobito

terça-feira, 4 de março de 2008

Lições de mercado...ou porque não há almoços grátis

Aos poucos, de volta ao mercado, ainda só para sentir como param as curvas (de oferta e de procura, claro…), convenço-me que a coisa não vai lá só à força da mão-invisível. É urgente uma entidade reguladora, um provedor, uma polícia especializada, um FMI, um tribunal vocacionado para este tipo de contendas.

Situação 1 – Meter conversa

a) Tentativa de meter conversa numa discoteca cá do burgo. 2 predadores a cercar território, com lenta aproximação física. E vai o mais feiinho:
Feiinho - Olha, oghxoçrugxoçrg…
Moi - Desculpa, não percebi!
Feiinho - Queria perguntar se te podia apresentar o meu amigo? (e o amigo, mesmo ao lado espreita e sorri com ar de totó)
Moi - Ah! Acho que não.
Feiinho - Oh, mas porquê, ele é muito bom rapaz, sabes? (ri-se satisfeito com a graçola)
Moi – Ah! Acredito, acredito.
Feiinho – Então, por que é não to posso apresentar?
Moi – Porque para me apresentares o teu amigo, terias de me conhecer primeiro, não é?

Lição 1: Já não temos 15 anos... E meter conversa é um core business que não admite outsourcing.

b) Ficando sozinha na mesa de um barzito, quando os amigos se ausentam para abastecer a copofonia.
Desconhecido – Então, olá.
Moi – Olá.
Desconhecido – Não te lembras de mim?
Moi – Não.
Desconhecido – Mas, não te lembras porque não tens memória ou porque não te queres lembrar?
Moi – Se calhar, não me lembro porque não nos conhecemos, de facto, não é?

Lição 2: Se quer fidelizar clientes, não aposte num plano de marketing intrusivo à la-banha-da-cobra, sobretudo, se não tem capacidade argumentativa para o desenvolver.

Situação 2 – Os cafezinhos, jantarinhos e outros inhos...

a) Cafezinho da praxe, com uma personagem que gere activos, mercados de risco e outras coisas não tangíveis e sobre as quais eu não percebo um chavelho (e quero continuar a não perceber). Segue o guião habitual: atão e como é que é teu trabalho, atão e como é que… tutti, tutti, tutti… a dada altura:
Moi - E filmes também sacas da net?
Gestor - Ah só alguns… Tenho poucos… Só mesmo os filmes da minha vida (eu devia ter suspeitado da expressão tão Lauro Dérnio)
Moi - Ah! Então e quais são?
Gestor - Ah, e tal, tu não deves conhecer?
Moi - (confesso, aqui ocorreu-me a produção cinematográfica do Sri Lanka, Kuala Lumpur, Gronelândia) Mas, passo a saber. Diz lá.
Gestor - Então, o Cinema Paraíso
Moi - (Toing) hum, sim, conheço.
Gestor - Este se calhar não conheces mesmo… É antigo
Moi - Sim
Gestor - Francês
Moi - Sim
Gestor - Há festa na aldeia.
Moi - Do Jacques Tati, sim.
And so on, and so on…

Lição 3: o Mercado não é alheio às dinâmicas homo e heterogeneizantes da globalização. Portantos, não ignoremos as suas especificidades. Com todo o respeito, mas nem tudo se resume e cabe num blockbuster perto de si.

b) Já na base do jantarinho com "amigo" escandalosamente giro e obsessivamente bem esculpido com quem disserto sobre as vantagens do diálogo sobre a violência física (ah, tem uma empresa de segurança e estórias hiper suculentas de quando trabalhava nas portas dos bares e discotecas cá da zona):
Segurança - E então o que é que vais pedir?
Moi - Nã sei… Hum, acho que vou no entrecosto.
Segurança - Isso é porco?
Moi - Sim, é porco, porquê?
Segurança - Iac, não como porco.
Moi - Mas, porquê és muçulmano?
Segurança - Não.
Moi - Não gostas? (confesso que aqui pensei que se seguiria um diálogo à la Pulp Fiction: porks are fielthy animals...)
Segurança - Não é isso, faz muito mal.
Moi - Pois, viver pode trazer danos irreparáveis à saúde (disse eu, com ar de gozo).
Segurança - E às mulheres então… vai tudo para coxas e para o rabo (diz ele, com ar sério).
Moi - (Toing) É bem possível...

Lição 4: O que vai para as coxas e para o rabo sou eu que decido e tu, definitivamente, não. Onde é que ficou a máxima do cliente tem sempre razão. Humpf!!!

c) Bom, como este espécime é mesmo muito apetecível (quando está calado) pensei em insistir. 2º jantarinho, chegamos à fase da arqueologia do mulherio:
Moi - Ah, e então acabaram?
Segurança - Foi, porque ela bebia muito e também fumava (a gande vaca, pensei eu que ele pensava). Olha como é que ela ficou. (rapa do telemóvel e vai de mostrar)
Moi - Ahh.
Segurança - E então, conheci a blá-blá-blá, e acabamos.
Moi - Ah foi?
Segurança - Ela queria sempre discutir muito (rapa do telemóvel e vai de mostrar)
Moi - Ahh.
E continuou… ao ponto de eu achar que aquilo não era um telemóvel, mas sim um mini-buraco negro em frames...puff!

Lição 5: A referência ao percurso histórico (ou seja, ao mulherio anterior, faz-se na base do tópico, da súmula). Digamos que é apenas um Curriculum Vitae Síntese... se não são artistas, nem designers, o mercado dispensa o portfolio.

De modos que é assim, o mercado tá flat...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O mito do efémero retorno

Encontramo-nos casualmente. Aliás, vivendo nesta cidade e tendo em conta o confinado circuito em que nos movemos, o que é estranho é não esbarrarmos um no outro mais vezes. Cumprimentei-te, mas não fazia tenção de alimentar conversa. Tinha-te enviado uma mensagem em Novembro que apenas pedia uma informação profissional. Não respondeste e pensei, "ah, ok, não sabia que nos encontrávamos neste patamar de desentendimento, mas tudo bem!". Contigo, aprendi a não estranhar o desinteresse, a clausura e o autismo social em que é possível alguém a estruturar a sua vida.
Para enviar essa mensagem tive de pedir o teu número a uma amiga comum (tenho o hábito de higienizar a minha lista telefónica, apagando números de telefone que não tenciono utilizar). Soube que te incompatibilizaste com essa amiga durante uns meses. Esta saída, em que nos cruzámos, e onde ela estava, marcava a vossa reconciliação e, consequentemente, a tua tomada de conhecimento da mensagem que te havia enviado.

Gostei que tivesses dissipado o mal entendido. Gostei do esforço explicativo a que te propuseste, afirmando não ter recebido essa mensagem, porque estavas fora. Gostei que tivesses afirmado que, não obstante tudo o que se passou, poderia contar contigo sempre que precisasse. Mais, confesso que gostei de te ouvir dizer que sentias saudades minhas e que achavas que isto (de termos deixado de falar) não fazia sentido. Simplesmente, devias ter ficado por aqui. Devias ter entendido que quando chutei para canto anotar o teu novo número de telefone, isso significava o meu limite. O limite traçado em torno de uma existência pacífica e cordial sempre que o acaso nos juntasse neste pequeno burgo. Só isso.

Embriagado pela carência emocional e etílica que às vezes te assola, decidiste ultrapassar essa fronteira e prosseguiste, invocando um passado que já não tem o mínimo sentido corporizar-se em palavras. Decidiste partir há quase quatro anos, sem uma explicação plausível. E eu não ta pedi. E tu, não tens a mínima ideia do que significou para mim avançar daquele ponto sem coordenadas em que me deixaste. Mas, como é evidente, avancei. Prossegui há muito tempo. E hoje, sei que a diferença não residiria nos argumentos que tu invocasses para terminar a relação. Hoje, eu sei que o que teria feito alguma diferença teria sido testemunhar da tua parte a existência de um esforço explicativo para o fim que desejavas, só isso. Não faz sentido, depois de todo este tempo, afirmares que há uma justificação que não me deste e que estás disposto a dar, claro, unicamente se ta pedir. E eu não peço aquilo de que não careço, aquilo não me faz falta.

Vertendo este encontro e a minha experiência contigo para o meu presente, há algo de positivo. Verificar a minha plena e completa indiferença à tua inesperada presença, quando durante muito tempo apenas pressenti-la me faria disparar de ansiedade e arritmia. Perceber que é sempre quem nega ao outro o que este lhe pede que mais tarde se encontra ainda incompleto e ainda periclitante.

Por isso, sei que isso também irá acontecer contigo, C. Sei que chegará um dia em que deixarás de assaltar o meu pensamento nas mais diversas circunstâncias. Sei que chegará um dia em que a tua presença não influirá na minha. E, desconfio, que se insistires em recusar a hipótese de diálogo que te pedi, poderás ter dificuldade em fechar a porta que entreabrimos.

Foto: Plastic Wind, DDiArte

terça-feira, 20 de novembro de 2007

E no meio o que é que há?

Gosto de me definir como uma criatura racional, ponderada, analítica e lógica (bom, tem dias!). Na verdade, penso que faço uso desse modelo de actuação-reflexão em diversas esferas da vida e que sou muito bem sucedida com isso. Foi assim no meu percurso escolar, é assim no meu trabalho, nas minhas relações familiares e de amizade... Há apenas um domínio em que me sinto completamente à toa e onde este infalível paradigma de vida dá claros sinais de falência: no amor (ou no que anda lá perto).

Vamos lá ver, se eu me explico. Eu não tenho nenhum problema em identificar o que sinto, o que quero e o que espero do outro. Aliás, se a coisa se resolvesse unilateralmente tudo rolava muito bem... Mas, não. Aqui só impera mesmo o team work. E fico desconcertada com a interlocução que tenho encontrado e com a respectiva hermenêutica que a relação exige. Não sei o que significa a existência de duas grandes gavetas no armário masculino das relações:

- há uma gaveta pequenina, onde cabe "a namorada". Bom, na verdade essa gaveta está vazia e pode albergar alguém... MAS, será, sem dúvida, para progenitora da prole, com assento marcado no almoço de domingo em casa dos pais.

- depois, há o gavetão das "AMIGAS". E aqui é o puro caos, onde se arrumam os one night stand mais ou menos etilizados, as curtes de férias, os casos mais ou menos coloridos de razoável duração cronológica e, claro, as "quase-namoradas-que-são-amigas-porque-namorada-só-tive-mesmo-uma"


Para quando uma gaveta intermédia (ou um organizador de gavetas da IKEA, pronto!)?