segunda-feira, 31 de março de 2008

Seguindo em frente

(em resposta - embora não responda - ao comentário da Teresia)

Através das palavras surge a possibilidade de capturar a realidade e de a enjaular na nossa grelha perceptiva. Não deixa de ser ilusório. A realidade é uma fera brava, um animal selvagem que não admite freios, nem amarras. Domestica-se durante um tempo, mas, quase sempre, quando menos esperamos (ou mesmo quando já só aguardamos e desejamos que tal aconteça), ela, qual leão, mostra a sua raça, quebrando as sólidas barreiras em que a havíamos encaixado.

O post anterior surgiu de um acontecimento concreto, a partir do qual ousei tecer algumas generalizações. Do mesmo modo que existem, pelo menos dois sentidos, virar ou seguir frente, também o protagonismo do movimento é, pelo menos, duplamente partilhado Contudo, tendo aflorado a questão, não me cheguei a colocar do outro lado. Se calhar, porque tenho a ideia de que lá não estive muitas vezes… Admiro a persistência, a determinação e a tenacidade com que algumas pessoas perseguem, um ideal, um objectivo, o ser amado... Curiosamente, não é assim que me vejo…

Na deambulação pelas obscuras vielas em que se estabelecem as relações humanas, trocam-se sinais. Socorremo-nos deles para tentar demonstrar um interesse, ora vago, ora ligeiro, ora intenso, ora arrebatador… (depende do ponto em que se encontra a relação que se cozinha). Simultaneamente, procuramos decifrar os sinais que o outro nos envia. As operações são concomitantes, concorrentes, convergentes, antagónicas, simbióticas, mas sempre delicadas, complexas e, sobretudo, incertas. Anos a fio a tentar falar em comum e não há acordo ortográfico que valha à miríade de dialectos que por aqui pulula. Nesta caótica torre de Babel, para mim, a possível e provisória resolução passa por criar uma verdade própria que se alicerça na força das declarações produzidas e no capital de confiança que lhes deposito. Então, estas declarações têm um valor fiduciário. Por si só, elas nada valem, apenas adquirem valor, porque a minha fé sabe que elas se trocam por um capital de afecto, desejo, amor, etc. Naturalmente, o mercado é sujeito a enormes flutuações e este valor oscila também em função de inúmeros acontecimentos. Declara-se o crash, a falência e a crise quando, procurando trocar os títulos pelo seu valor facial, percebemos que não passam disso, declarações nominais, sem real liquidez e valor de troca.

Mais uma vez, assim dito, parece fácil… Contudo, no jogo dos sinais tudo se complexifica na regra dos porquês: "ao mesmo tempo que se interroga obcecadamente por que motivo não é amado, o sujeito apaixonado vive na convicção de que, na verdade, o objecto amado o ama mas não o diz” (R. Barthes). Neste jogo, ridicularizamo-nos com muita facilidade. Sou a prova viva disso…

Por alturas do Dia dos Namorados, tendo-se já finado o meu, embora eu ainda não o houvesse decretado no Diário da República do coração e habitasse num vazio legal que teimava em não regulamentar, acontecia o seguinte: a outra parte emitia sinais. A pessoa em causa, apresentava-se no Messenger, acompanhada de legendas que eu, porque ainda amava, me julgava serem dirigidas. Andei a ruminar naquelas legendas (eu, avisei que era ridículo) durante uma semana e o corolário do ruminanço ocorreu no dia 14 de Fevereiro. Saindo de casa de manhã, pensando “hoje é um belo dia para a emissão de mais um sinal que será, sem dúvida inequívoco”, volvidos alguns metros, aproximo-me de uma rotunda onde se edifica um viaduto. Aí, um lençol branco prendia a minha atenção, bem como a de todos os automobilistas. E como uma profecia que se cumpre, à força de tanto a desejarmos, lia-se uma frase que, porque eu queria, me julguei ser dirigida. A mensagem aparecia assinada, mas quis o vento (e o destino, pensei) que o lençol se dobrasse estrategicamente após a primeira inicial, ocultando as restantes letras. O vento balançava aquela frase naquele viaduto, tal como a minha vontade a fazia oscilar em mim, todo dia…aquela inicial: C.
Era, no mínimo contraditório (para não apelidar de insano), eu “julgava sofrer por não ser amada e no entanto sofria, porque julgava sê-lo” (R. Barthes). Eu desejava ler naqueles proto-sinais um “fica... não vás... amo-te”. Felizmente (ou não) deixei-me estar, convicta de que a comunicação deveria escorrer por outros canais que inequivocamente me fossem dirigidos. Como tal não acontecia, enchi-me de coragem (ou simplesmente perdi o medo de ser ridícula) e, no dia seguinte à noite, estacionei na rotunda à espera que o vento me acompanhasse naquele exercício de desocultação onde, amargamente, um Custódio qualquer se revelou apaixonado…

Conhecendo-me um pouco, sei que um “ele ama-me” vagamente intuído em cantos dispersos do quotidiano, onde se catam olhares, gestos e palavras, não me basta. Sei que, a partir desse ponto, mergulharei na espiral da quantidade: "porquê só um pouco, como é que só me ama um pouco? Eu disse gosto muito de ti e ele diz eu só gosto de ti”… Seguindo-se a vertigem nominalista, “se ama, por que é que não o diz de uma vez por todas?”

Neste processo, o estado de espírito que em mim se instala assemelha-se ao acto de acampar. Acho graça ao terreno irregular da ambiguidade, onde tudo é periclitante e a pedra onde as costas insistem em assentar não nos permite ter uma noite de sono tranquilo e retemperador. Mas só aprecio (e não muito, devo acrescentar) durante um período muito limitado de tempo. A partir de então, quero mesmo é a caminha do hotel, com lençóis, água quente, sabonetinhos e tv por cabo. Mas isso, sou eu, que já percebi que não me sinto feliz numa tenda de campismo. Claro que perco, segundo os entendidos, os prazeres da natureza, da mobilidade, de ser económico, etc. No quarto de hotel onde agora me encontro instalada, estou sozinha. O single sai comparativamente muito mais caro do que o duplo. Provavelmente, encontraria, com alguma facilidade, tendas, iglos e roulottes para partilhar. Mas, por preguiça, comodismo, hedonismo (é só escolher), agora, acho que prefiro assim.

Optar, escolher, implica sempre perder alguma coisa. Sabendo o que se perde, não há que ter medo, nem pena de o fazer. Se é campismo selvagem que queremos fazer, pois, então, vamos lá. Mas vamos e estamos, enquanto quisermos lá estar, enquanto acharmos que ali há algo por que vale a pena dormir mal e andar sujo. Quando se lá está, mas a sonhar com o Ritz, então mais vale pegar na mochila e procurar algum conforto na residencial ou pensão familiar mais próxima.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Vira ou segue em frente

Já fui deixada pelo caminho algumas vezes. Naturalmente, também já fui abandonando algumas criaturas na berma da estrada. No apertado e desconfortável veículo de comunicação que, das primeiras vezes, se habita e se procura partilhar, nem sempre se chega a bom porto. Refiro-me aos contactos iniciais, aos preâmbulos da imagem que construímos do outro, onde tudo se cata, tudo se pesa e se avalia. Com a experiência de algumas viagens e, sobretudo, de promessas de jornadas que não o chegam a ser, comprime-se o tempo dedicado à primeira avaliação do suposto companheiro de navegação. Não sei se é a capacidade de medir o outro que se aprimora ou se é paciência que se esboroa aos poucos. A verdade, é que percebo (ou acho que percebo) com cada vez mais facilidade, após alguns lampejos de comunicação, se há possibilidade de peregrinar em conjunto, ou não.

Houve alturas, em que, querendo prosseguir viagem, fui percebendo que do outro lado a vontade não era idêntica. Provavelmente (muito provavelmente), já fui a gaja chata que não se enxerga e não descola. Contudo, dentro das minhas limitações interpretativas, sempre que descortinei que a querença (e a crença, também) do outro não coincidia, naquele ponto, de estar ali, comigo e prosseguir. Então, parti ou escancarei a porta para que, quem assim o desejasse, partisse. Quem já viajou guarnecido de companhia, sabe que não é possível ir muito longe com quem não comunga de uma idêntica disposição de descoberta. Por isso, sozinhos apenas estamos se assim o decidirmos e mal acompanhados também.

Não raras vezes, essa partida é acompanhada de uma certa depuração dos sinais do ex-viajante do veículo. Em tempos de comunicação mediada telefonicamente, e concluída a impossibilidade de estabelecer mediação, portanto esvaído o significado, apaga-se também o significante da lista. Este processo, para mim, é muito pessoal, muito íntimo, é o círculo fechado e autocrático, onde, senhora de um incomensurável poder, decido (ou, pelo menos, penso que decido) quem entra e sai da minha vida. Nunca me ocorreu panfletar a decisão, submetê-la ao escrutínio de terceiros e muito menos dos visados.

Ora, o inverso já me aconteceu algumas vezes. Desta última vez, detive-me a pensar um pouco mais no assunto. Tínhamos falado algumas vezes no Messenger, não muitas, porque não sou grande apreciadora do instrumento. O meio faz a comunicação e a minha onda é mais da co-presença (que é como quem diz fronha-to-fronha), portanto, saímos uma vez, para tomar o café da praxe e, enfim, conhecermo-nos. A introdução bastou-me para compreender que não queria ler mais capítulos. Precipitado? Talvez, mas ao contrário de um livro, que eu decido não ler, uma pessoa, no caso ele, tem sempre margem de acção para me convencer do contrário e conduzir-me a acreditar que ali, está uma história que, por vários motivos, vale a pena ser lida. Neste caso, não foi isso que aconteceu. Eu não quis ler e, com excepção de algumas sms de fazer sala, ninguém me convidou a deixar de ser analfabeta.

Perante isto, foi com algum espanto que o meu telemóvel me informou, com inesperada mágoa, que: “Tendo em conta que não existe reciprocidade… vou apagar o teu contacto. Boa continuação e um bjo
Ehhh, atão, tá”, pensei eu. Ainda por cima, sempre embirrei com a expressão “continuação”, nunca percebi, continuação de quê? O que só me levou a confirmar a decisão que já se havia cristalizado. Bom, mas se comunicação de apagar o contacto me surpreende, a sua não concretização já me exaspera.

Hoje, tinha um e-mail que se arrastava nos porquês que eu não havia fornecido para justificar a minha ausência (!!!), “não era por nada, era só por curiosidade e tal”. Mais, acrescentava que caso eu não respondesse, se veria forçado a diminuir a sua consideração (!!!) por mim. Lá respondi, tal como lhe expliquei, não movida pela redução da minha consideração no seu considerómetro (que é coisa que evidentemente não me interessa), mas porque as questões, quando colocadas, merecem sempre uma resposta, sempre. E disse aquilo que, para mim (e se calhar, para mais alguém), é complicado por em palavras… não me senti minimamente impelida, motivada em pensar uma viagem contigo, em conhecer-te.
Fiquei a conjecturar sobre a situação… É evidente que a criatura simpatizou (ou lá o que é) comigo. É evidente que pensou que comigo se teria passado o mesmo e esperou, desejando que eu o contactasse, que eu resgatasse e o conduzisse pelos corredores do que o encantou em mim. E a ausência de reciprocidade a que ele se reporta, tece-se nesse reduto imaginário, nessa projecção da nossa vontade no outro. Eu falhei, porque não lhe devolvi essa imagem. Ele falhou, porque não percebeu que não ameaçamos sair do jogo, para ganharmos a simpatia da equipa e termos o capitão a pegar em nós pelo braço, “oh, não vás, fica mais um bocadinho”. Não se anuncia uma partida, acalentando o desejo contrário. Ou resolutos e (mais ou menos) dignos vamos embora, sem olhar para trás. Ou ficamos, porque enquanto houver bola em campo e até o árbitro apitar, o jogo continua...
Foto: "Ou vira ou segue em frente" de Vieirinha

quinta-feira, 27 de março de 2008

Na caixa da glória

I'm so tired, of playing
Playing with this bow and arrow
Gonna give my heart away
Leave it to the other girls to play
For I've been a temptress too long
Just. .
Give me a reason to love you
Give me a reason to be ee, a woman
I just wanna be a woman
From this time, unchained
We're all looking at a different picture
Thru this new frame of mind
A thousand flowers could bloom
Move over, and give us some room
Give me a reason to love you
Give me a reason to be ee, a woman
I just wanna be a woman
So don't you stop, being a man
Just take a little look from our side when you can
Show a little tenderness
No matter if you cry
Give me a reason to love you
Give me a reason to be ee, a woman
Its all I wanna be is all woman
For this is the beginning of forever and ever

Its time to move over... ...


Hoje, ainda estou aqui, nesta Glory box… mas incapaz de deixar de brincar e dar a minha vez a quem quer que seja, ainda à procura de um you, porque a reason to love, eu já tenho...

quarta-feira, 26 de março de 2008

Viver (também) é recordar…


Ao contrário do que Vítor Espadinha proclama, não acredito que recordar seja viver, mas sei que viver também passa aí, por recordar… O concerto dos Portishead a que hoje vou assistir (sim, eu tenho bilhete para a plateia… há muito tempo) é também um exercício de nostalgia.

Dummy, o primeiro álbum da banda, foi meu primeiro Compact Disc e foi também o primeiro presente do meu primeiro namorado. Perdi a conta das vezes que em que me arrastei com aquela voz, pelas paisagens melancólicas, pontuadas por tonalidades cinzentas, ora escuras, ora expoentes exacerbados de luminosidade.

Em 97, tinha entrado para a faculdade e, entre os colegas de curso, destacava-se o N., inicialmente, por apenas me ter resgatado da massa anónima das restantes criaturas que por ali se juntavam. Aproximamo-nos de uma forma lenta, alimentada por horas de cafés e chávenas de conversas e por matinés de cinema que, sem dificuldade, se sobrepunham ao horário das cadeiras mais chatas. Durante muito, mas mesmo muito tempo, eu não percebi o que é que aquele homem descobria em mim que lhe agradava e que o forçava a ficar, a cativar-me. Na altura, ele era 8 anos mais velho do que eu. Naturalmente, hoje essa diferença cronológica é igual, mas há dez anos atrás, eu tinha apenas 18 e, perante ele, nada de relevante para contar, nada de essencial a acrescentar-lhe, o que dilatava distância a que dele me via.

Percebi há algum tempo que as pessoas por quem me enamorei partilham de algo em comum: a capacidade de me despertarem algum tipo de admiração. Há algo em todas elas que me maravilha e que me é estranho. Algo que eu considero inalcançável, inatingível, raro e belo. Algo que eu quero, que desejo, que anseio por incorporar em mim. No caso do N., esse assombro nascia no reduto intelectual, na erudição que eu lhe reconhecia, na capacidade que eu testemunhava de articulação de toda a sua experiência e saber para a produção de um sentido e de inteligibilidade do mundo.

Acho que nunca lhe disse isto, e duvido que ele suspeite, mas só muito recentemente, me sinto realmente de igual para igual numa conversa com ele, sem complexos, sem receios de me espalhar ao comprido numa imbecilidade qualquer. Não porque tenha deixado de ser imbecil e ignorante, mas porque percebi que, entre nós (como em todas as relações humanas autênticas) o que é nevrálgico, na intimidade que se tece, não é o conteúdo. Não é relevante o número de livros que se terá lido, os filmes que se terão visto, as viagens que se realizaram... A base do nosso entendimento residia na forma. No modo cúmplice como comunicávamos de improviso e sem pauta nos instalávamos como velhos conhecidos num sentido de humor partilhado. No riso, na gargalhada fácil que despertávamos no outro, a partir do elemento quotidiano mais banal ou a partir de um tabu, de um assunto interdito, de um acontecimento traumático e designado pelos outros como coisa séria, com a qual não se brinca… Esse era (e é) o ponto do nosso entendimento.

A partir daí, foi fácil concluir que estava apaixonada, mais fácil ainda reconhecer um desejo crescente, primordial e desconhecido que apenas o corpo poderia aplacar. Foi numa sessão do FantasPorto, Blue Velvet do David Linch na tela, e uma te(n)são que crescia entre nós como arame farpado, já doía estarmos próximos e não nos tocarmos. Esse foi o primeiro beijo e uma das maiores descargas de adrenalina, prazer e sensualidade que os meu lábios já testemunharam. A partir de então, as matinés de cinema viram-se trocadas por tardes de sol filtradas na janela do quarto, pela roupa amarrotada que enfeitava o soalho, pelo cabelo em desalinho que nos ligava, suados, exaustos e insaciados. Tenho uma imagem muito nítida de uma dessas tardes. Regressava a casa, no final do dia, num autocarro apinhado de gente remetida de locais de trabalho acinzentados e baços e acreditei genuinamente que teria de me esforçar para ocultar daqueles olhares inquisitivos, o brilho, a lúxuria e a felicidade que exalava do meu corpo.

Nesse verão, há dez anos, os Portishead vieram cá, ao festival do Sudoeste. As amarras parentais não me permitiram estar lá com ele, a ouvi-los. Recebi um postal que dizia “Nobody loves like you do”… Dez anos depois, sabemos que não foi assim. Mas, sei que houve um dia em que também o foi e isso é meu, intrínseco e indissolúvel…

To pretend no one can find,
The fallacies of morning rose,
Forbidden fruit, hidden eyes,
Courtesies that I despise in me
Take a ride, take a shot now.

‘Cause nobody loves me,
It's true,
Not like you do.

Covered by the blind belief,
That fantasies of sinful screens,
Bear the facts, assume the dye,
End the vows no need to lie, enjoy,
Take a ride, take a shot now.

‘Cause nobody loves me,
It's true,
Not like you do.

Who oo am I, what and why?
‘Cause all I have left is my memories of yesterday,
Ohh these sour times.

‘Cause nobody loves me,
It's true,
Not like you do.

After time the bitter taste,
Of innocence decent or race,
Scattered seed, buried lives,
Mysteries of our disguise revolve,
Circumstance will decide.

‘Cause nobody loves me,
It's true,
Not like you do
(Sour Times, Portishead)

terça-feira, 25 de março de 2008

Ressurreições

Imbuída do espírito milagreiro e ressuscitativo da época, a minha tese de mestrado emergiu do estado comatoso e moribundo em que se encontrava. Ainda se encontra ligada à máquina, não consegue respirar por si, revela algumas limitações de articulação, tem dificuldade em ser coerente do princípio ao fim do discurso, necessita de algumas transfusões de sangue teórico compatível (dadores já amplamente identificados). De acordo com o chefe da equipa cirúrgica (vulgo orientador), revela-se excelente na sua estrutura, necessitando apenas de um período de intensa terapia diária. Se a recuperação correr de feição, no princípio do mês de Maio, estará cá fora de boa saúde (até lá, reservo os meus serões e fins de semana a cuidar da pobrezinha).

quinta-feira, 20 de março de 2008

De bestial a besta

Um pequeno incidente de (in)comunicação ocorrido num barzito aqui, do burgo, fez-me relembrar a velha máxima que sintetiza a facilidade com que, no futebol (mas, não só...), passamos de bestiais e bestas...

Sábado à noite, eu, duas amigas e um amigo. Dois de um lado da mesa e os outros dois do lado oposto, cinzeiro no centro (sim, pode-se fumar) e muita conversa em circulação. Eu estava de costas para as restantes mesas no espaço, portanto, apenas via os dois amigos que estavam à minha frente.
Ora, à custa de andar a puxar a porra da mala pelas Lisboas e pelos comboios e pelos táxis e mais sei lá o quê, dei um jeito às costas que, nesse dia, praticamente me imobilizava (na realidade, é apenas velhice precoce localizada na zona lombar e, foi-se a ver, não era assim tão grave, porque nesse dia fiquei a dançar até às 7 da matina). Bom, ao fim de algum tempo procurando uma posição mais confortável (ou menos dolorosa, consoante as perspectivas), sou obrigada a voltar-me para as restantes mesas do bar e para o imberbe grupo de gralhas que estava mesmo ali ao lado. Ajeitado o reumático, verifico que dois miúdos desse grupo, me olhavam fixamente com ar divertido. O olhar era tão ostensivo que igualmente os fitei. Pois, para minha grande surpresa e estupefacção, um deles (por acaso, era o mais engraçadito... menos mal): inclina o tronco ligeiramente para a frente, esbugalha lentamente os olhos, encurrilhando a testa, entreabre os lábios e... PÕE A LÍNGUA DE FORA!
Eu observava-o agora com espanto, perplexidade e uma ponta de desprezo, enquanto pensava: "esta agora, o que é que o raio do puto quer?!?". O compincha da criatura, adivinhando o meu pensamento e percebendo que eu não falava "aquela língua", resolve traduzir: "ah, e tal... chamaste a atenção do meu amigo!”. Pois, claro, então não é evidente! Pedagogicamente, respondi-lhe, "Ah, está bem. Mas, devias pensar em domesticar o teu amigo primeiro, antes de o deixar sair à rua e interagir com pessoas”.
A custo (porque me doíam as cruzes), voltei-me novamente para a minha mesa. Breves instantes passaram e um zum-zum adensava-se nas minhas costas (e não era o reumático, que ainda não estou nesse ponto de chiar dos ossos). Voltei-me novamente, olhando as mesmas criaturas. Desta feita, era o mais engraçadito quem falava. O episódio incial provava que o gato não lhe tinha comido a língua, contudo, constatava agora que alguma coisa lhe havia carcomido a zona do cérebro responsável pela função linguística. Eu juro que prestei atenção, mas não encontrei a ponta do novelo daquele raciocício: “não sei quê, porque eu sou gajo, e eu tu fosses gajo eu falava contigo de outra maneira, mas como és gaja… porque se fosses gajo, como eu sou gajo, a gente resolvia a coisas de outra forma...”. Consciente das minhas limitações de género, declarei, “ok, se eu fosse gajo, tu falavas comigo. Mas, como vês, não sou. Por isso, é inútil prosseguirmos”.
Voltei-me para a mesa, passaram uns momentos e nova investida. De entre as vociferações que as criaturas proferiam houve uma que se revelou crucial: “ah e tal... és feia, és mesmo feia...”. Eu achei graça, mas curiosamente perante aquela frase os meus amigos mobilizaram-se (acho que não queriam ficar mal falados, com fama de se fazerem acompanhar por uma rapariga mesmo feia). Foi perante o único gajo que estava na mesa (que por acaso tem 1,90 cm) que ele se explicou e que eu fiquei a compreender:
Ah e tal, já estava aqui há algum tempo e a tua amiga chamou-me a atenção, achei-a, prontos, engraçada e gostava de a conhecer.”
Hummm, eu tenho andado um bocado arredada destas lides, mas desde quando é que por a língua de fora deixou de ter uma conotoção trocista e infantil e passou a ser utilizado como um cumprimento, um elogio (naturalmente, reporto-me à idade adulta, o jardim de infância e a escola primária não contam)?

É sabido que, no futebol, equipa que ganha, tem um treinador bestial. Mas, se a mesma equipa, com os mesmos jogadores e com a mesma táctica perde, defraudando as expectativas dos adeptos, o mister é indiscutivelmente uma besta. Já me tinha esquecido que no jogo do engate rasteirinho é a mesma coisa. Num espaço cheio de gente, há uma pessoa que, por algum motivo (bem, na verdade estamos a falar da vertente rasteirinha, por isso, normalmente não são os lindos olhos...) prende a nossa atenção. Se vamos até lá e a coisa corre bem: bestial. Se levamos para trás: ganda vaca, tem a mania qué boa, mesmo feia... Besta!

Como diria o outro "e eu qui sô ruim? eu qui sô mau treinadô?"

quarta-feira, 19 de março de 2008

Como nossos pais*

Diz que é Dia do Pai e eu vou dar um salto até casa dos pappis, abancar-me pó jantarinho e dar duas de letra com o velhote. Passar em revista os disparates semanais do governo, dizer mal do benfica (ainda quero ver o que é que ele acha deste achado que é o Chalana como treinador!), lamentar solidariamente a (mais que provável) descida de divisão do Leixões ('taditos, compraram um autocarro à séria pa fazer bonitinho na liga, mas é tão grande que eu desconfio que, na próxima época, quando voltarem a ir jogar à Rechousa e a Nogueiró dos Vinhos, a traquitana não deve passar pelas vielas esconsas).
Nunca chamei o meu pai de pai, chamo-o pelo nome. Sempre foi assim. Enquanto criança, os amigos perguntavam se era meu padrasto, ao que eu respondia: "não é o meu pai, mas chamo-o Zé, porque é o nome dele" (parecia-me tão evidente!!). Acho que nunca fomos próximos, íntimos, fluidos e totalmente autênticos um com o outro. A minha adolescência marcou um período de conturbada existência entre nós, apaziguado com frequência e com uma diplomacia que causaria inveja a qualquer funcionário das Nações Unidas, pela minha mãe (que chamo de mãe e nunca me ocorreu ser de outro modo).

Conservador. Acho que é uma das palavras que define o meu pai. Razão pela qual, quando transmiti a intenção de morar sozinha (escapando ao fado geracional de sair de casa dos pais para casar) pensei que seria decretado o "estado de sítio" da nossa relação. Nada disso! Perante o meu comunicado, ele apenas pergunta: "mas, vais viver com um companheiro?" (não sei como contive tamanha alarvidade de riso e gargalhada perante esta expressão, tão PREC... um companheiro, camarada, campesino...).

Desde então, o denso manto de neblina que separava e bloqueava a nossa comunicação foi-se levantando, permeabilizando-se a alguns raios de luz que o deixam ver com mais nitidez. Fica clara a sua aversão à mudança, mas também uma fidelidade canina à família e aos amigos, uma honestidade a toda a prova, uma existência colada aos princípios em que acredita, uma certa obstinação face à palavra e ao compromisso. Quando a minha mãe se chateava comigo, uma das piores coisas que ela me podia dizer era, "és igualzinha ao teu pai". Aquela frase arremessava-me de novo para o ponto zero, para um ponto próximo dele, de onde, eu achava que me queria afastar. Hoje, perante tal declaração, apenas sorrio. Se calhar, é mesmo muito provável que comunguemos de um mesmo património de carácter. Podia ser pior... podia ter herdado o benfiquismo (argh)!!

*De preferência, ao som de Ellis Regina
Foto: "Himba Tribes" de Nuno Lobito